A narrativa dominante, difundida por jornais, tv, políticos, universidades, revela uma perversão sem limite da linguagem e, consequentemente, da percepção do mundo. Cria e alimenta um “paradigma” ou mito, onde o que é humano não existe senão em função do económico. Um paradigma que não é sequer discutível, porque ele próprio fornece as perguntas e as respostas.
Um dos exemplos mais significativos e perigosos é o assunto quente do momento, a eutanásia.
Não é algo que esteja explícito, mas está implícito nos discursos sobre eutanásia e no seu fundamento.
É interessante que uma das frases mais propaladas seja “por uma morte digna”, como se houvesse alguma dignidade ou indignidade no acto de deixar de estar vivo. O truque (porque é um truque) é colocar em primeiro plano a morte e não a vida.
Porque é a vida que tem dignidade e é a vida que tem de ser protegida. Porque é o doente que espera meses por uma consulta, que precisa de ver protegida a sua vida e a sua dignidade. Porque é o doente que não tem médico ou enfermeiro, que precisa de ver protegida a sua vida e dignidade. Porque é o idoso que nem dinheiro tem para pagar a renda de um quarto e muito menos para comprar os medicamentos, que precisa de ver protegida a sua vida e dignidade. Porque é o idoso que vive com a sua solidão, que precisa de ver protegida a sua vida e dignidade.
E são milhares, centenas de milhar, as vidas que estão nestas condições.
A vida é feita de escolhas e quando se escolhe lutar pela morte antes de lutar pela vida e pela sua dignidade, há uma clara ignorância das prioridades e um oportunismo desprezível de quem demagogicamente agita a morte para ocultar os vivos.
Há pessoas “importantes “ e até reconhecidos filósofos que defendem uma morte digna? Pois há, mas o facto de existirem não lhes dá razão nem anula a perversão de valores ao colocar o assunto da morte ignorando a vida. A sua atitude é análoga à de algumas soluções de trânsito: numa rua com dois sentidos, devido ao permanente estacionamento em segunda fila, que se faz? Ignora-se o prevaricador e a rua passa a ter um só sentido. Ou seja, premeia-se a infracção.
O idoso está só? O doente tem uma doença terminal? O doente não tem como pagar o hospital? O seguro não paga mais? Os herdeiros querem livrar-se do doente antes que a herança acabe? Eutanásia já.
Ah! Não é nada disso? Pois. Então vão ver estatísticas de há vinte anos na Holanda. Ou estatísticas de seguradoras e de doentes abandonados.
Nenhuma, mas mesmo nenhuma discussão sobre a eutanásia é uma discussão honesta antes de se resolver o problema dos vivos.
Do que acabei de dizer poderá depreender-se que estou ao lado dos que se opõem à eutanásia. Não, não estou. Simplesmente, porque maioritariamente não são pela defesa da vida e dignidade do doente, mas pela defesa de um dom oferecido por um deus. Não é um acto humano em defesa do humano, mas a intransigente defesa do dogma da vida como doação divina. Não defendem a dignidade humana mas apenas o seu deus. No entanto, um deus que precisa de tais defensores coloca-me sempre a dúvida sobre a sua capacidade e, sobretudo, sobre as reais intenções dos seus auto nomeados ajudantes.
Os cuidados paliativos parecem-me uma boa opção quando a medicação para a cura já não é eficaz. Parece-me uma boa opção para preservar a dignidade da vida que restar.
No entanto, os cuidados paliativos são um negócio que muitos não podem pagar e morrer fica mais em conta.
Posto isto, defendo a possibilidade da eutanásia, mas só depois de se praticar, em concreto, a defesa da vida e da sua dignidade.
Para isso não bastam decretos de faz de conta e não é com a mediocridade intelectual e moral dos políticos que temos que lá se chegará. Eles são o modelo da sociedade e, uma sociedade que se alimenta de futebol, casas de segredos, comentadores coscuvilheiros e afins, não está apta para discutir e muito menos votar sobre algo mais complexo que a melhor cerveja: super bock ou sagres.
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