quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Utolândia (4)

 

Estórias da Utolândia – da estupidez diplomada e da irresponsabilidade criminosa

Como é sabido, há décadas que as políticas governamentais e a narrativa dominante na Utolândia têm conduzido não só a uma incompetência generalizada mas também a uma ignorância crescente e a uma estupidez contagiosa.

Nos dias que vão correndo, duas pestes concorrem, na Utolândia, pelo primeiro lugar: a peste da estupidez e uma nova, de origem vírica, que surgiu há pouco. Nem uma nem outra têm ainda cura. Apesar da tão falada imunidade de grupo, a primeira continua a afectar a generalidade dos utolandeses e para a nova talvez haja a possibilidade de uma vacina ou medicamento. Para a primeira já não há esperança.

Em boa verdade o problema não é exclusivo da Utolândia mas do planeta na sua generalidade. Um dos meus exemplos favoritos é o de uma senadora sul americana que propôs a realização de um referendo para decidir se a terra é redonda ou não.

Como também se sabe, na Utolândia, todos ou quase são especialistas em futebol. Surgiram agora duas novas modalidades em que quase todos os utolandeses se tornaram especialistas: direito e epidemiologia. Alguns até são especialistas nas duas. Um exemplo: no fim de semana um grupo destes especialistas promoveu uma manifestação anti-máscaras. Fundamento? O direito de não usar aquele acessório que ainda por cima é inútil. Como se vê, especialistas que ao mesmo tempo que afirmam o seu direito a infectar os outros, explicam cientificamente a ineficácia das máscaras com a evidência do embaciamento das lentes de quem, simultaneamente, usa os dois acessórios (máscara e óculos). Se as lentes embaciam é porque o vapor provocado pela respiração não fica contido na máscara e daí a inutilidade da mesma. Como este especialista parece saber, não há qualquer diferença entre estas gotículas e a projecção à distância que acontece quando se espirra, tosse ou fala.

Também um outro especialista, este, devidamente diplomado na área, afirma que as máscaras são inúteis e o importante são as mãos. Portanto, parece que a lavagem das mãos substitui a máscara.

Depois temos uns escrevinhadores diplomados, sobretudo em estupidez, mas simultaneamente em tudo o resto, como política, ciência, estatística, epidemiologia, gestão hospitalar e sei lá que mais. Parece que a máscara, além de inútil, aumenta o medo. E depois, a nova peste só mata os velhos. Além do mais, o vírus nem se espalha pelo ar e os especialistas que afirmam o contrário são parvos. Portanto, há que, irresponsavelmente, contribuir para a manutenção das duas pestes. Até porque, como se sabe, o medo entope os hospitais e esgota a capacidade de internamento. Já a peste vírica em nada afecta.

Claro está que a nenhum destes especialistas ocorre que a necessidade de implementar leis que obriguem e penalizem, só acontece pela irresponsabilidade generalizada. Também, a quem governa, não ocorre que as contradições, ausência de critérios médicos e hospitalares uniformes, falhanço de questões de logística elementar ou a péssima informação contribuem para a sua descredibilização.

Dominados pela peste da estupidez, os utolandeses deliram com estes espectáculos, escritos e televisivos, ainda mais que com os segredos e irmãos.

Entretanto já há hospitais sem espaço físico para internamentos. E não falo de camas, que estão esgotadas. Já não há sequer macas ou lugar onde colocar doentes. E nem digo das urgências ou do pessoal de saúde infectado.

Na Utolândia, a irresponsabilidade criminosa é mesmo um espectáculo!

Utolândia (2)

A história da Utolândia

Como prometido quero hoje falar-vos um pouco sobre a história da Utolândia. No entanto, têm ocorrido factos estranhos sobre essa história. Factos são factos e poderíamos acreditar que todos os vêem como são ou foram acontecendo. Talvez por influência da filosofia de síntese, cada utolandês relata uma história diferente.

Deixem-me primeiro abordar, ainda que de forma medíocre o que é esta filosofia de síntese.

Há muitos séculos começaram a chegar à jangada notícias de filósofos que pretendiam encontrar a Verdade. Não era uma verdade qualquer, era a Verdade, a única, a absoluta, a que não oferecia quaisquer dúvidas. Na Utolândia, algumas almas mais propensas ao misticismo, aderiram a estas ideias e cada alma não tardou a apresentar a sua verdade. Houve até uma época em que as verdades verdadeiras se guerreavam entre si e os seus seguidores se matavam aos milhares. Depois, outros filósofos menos dados aos misticismos e mais virados para a lógica, encontraram na existência de várias verdades a negação da Verdade. Uma outra linha filosófica negou logo que a verdade existisse, porque a única verdade era "que o homem é a medida de todas as coisas". Ainda assim, alguns grandes filósofos insistiam que tinha de existir uma Verdade que permanecesse para além de tudo o que nascia, se transformava e morria. Uma Verdade para sempre igual a si mesma, imune a qualquer mudança. Uns encontravam-na nas Formas, outros nas Ideias.


Não se sabe bem como, mas ao longo dos séculos foram surgindo vários livros que procuravam conciliar todas estas teorias. Pouco a pouco, sem que alguém desse conta de onde ou quando, surgiu a filosofia de síntese Também ninguém sabe dizer quem lhe deu o nome.


Porém, também a filosofia de síntese é diferente em cada livro que, não se sabe porquê, é sempre anónimo.


As habituais línguas viperinas dizem que os autores e editores pertencem à Corporação dos Jogadores de Monopólio.


Pois é, ainda não vos falei da corporação dos Jogadores de Monopólio. Mas terá que ficar para mais tarde.


Agora voltemos à filosofia de síntese. Como está bom de ver, a proliferação de sínteses veio dar um golpe definitivo na filosofia e nos que tentavam e apelavam à reflexão, que imediatamente caíram no descrédito e passaram a ser tratados como bobos da corte, excepto quando atingem uma idade considerável. Nestes casos, de vez em quando, para se fazer de conta que alguma importância se dá à sabedoria, ao pensamento reflexivo, entrevista-se um destes idosos. Focam-se bem os indícios de velhice, as rugas, os cabelos brancos e conduz-se a entrevista de modo a mostrar que o velhote está gagá. Na verdade, se é que esta é para aqui chamada, o que acontece é que a lucidez do velhote é demasiado sábia e talvez complexa para que os pobres de espírito dos entrevistadores e leitores ou espectadores compreendam. Por isso, o reino é deles.


Curiosamente alguns filhos da filosofia continuam a ser muito usados para justificar qualquer posição. Um dos exemplos é a Ética.


As primeiras reflexões sobre a Ética falavam de Princípios que regulavam o comportamento e as relações humanas. Estes Princípios não davam muito jeito porque eram pouco flexíveis e rapidamente foram substituídos pelos valores. Um valor, como se sabe, é aquilo que vale num determinado momento e dentro de um certo sistema de referências.


Um valor é um conceito sobretudo economicista. Talvez por isso, os viperinos dizem que também esta ética foi inventada pelos jogadores de monopólio. Dizem ainda que nos arquivos, enormes, da corporação, existem milhares de livros, com milhares de éticas, que justificam tudo. Seja pois qual for a circunstância, tudo está justificado pela ética. Dizem ainda os viperinos que na sala ao lado está o arquivo das leis, que também tudo justifica numa perspectiva de legalidade. Numa outra sala jazem os livros de História, cada um relatando uma história diferente para a Utolândia. Já estão a ver o por quê da minha dificuldade em contar a história.


Dizia um historiador do continente que alguém que ignora a história, que ignora o seu próprio passado, estará sempre a repetir os mesmos erros.


A acreditar nos viperinos, a Corporação dos Jogadores de Monopólio conhece profundamente o passado, a História. Mas não é do seu interesse que essa história, a dos factos como aconteceram, seja do domínio público. Nas entrelinhas alguém poderia descobrir as suas manipulações. Alguém poderia aprender com os erros do passado. Por isso a Corporação todos os anos contrata estagiários e aprendizes para escreverem novos livros de estória, que são depois distribuídos pelas escolas do território.

Para que os professores mais velhos, os únicos ainda com memória, não dêem conta destas falsificações, inventaram relatório atrás de relatório, ficha atrás de ficha, reunião atrás de reunião, impedindo-os assim de exercer o que supostamente seria o seu objectivo: ensinar. E quando nos intervalos de relatórios, fichas, reuniões conseguem o tempo para ensinar, o cansaço e desânimo são tão grandes que até se convencem que os seus conhecimentos estão errados e o livro que têm em frente está correcto e completo.


Com os professores mais novos não há este último problema. Os livros em que aprenderam eram mais parecidos com os actuais. E nem sequer é preciso lê-los. Digitaliza-se a página, faz-se um Power Point, passa-se para o quadro interactivo e já está.

Com tudo isto distraí-me e ainda não lhes falei da História da Utolândia. Mas já viram que vai ser difícil. E hoje já estou cansado. Amanhã, talvez, começarei a contar algumas coisitas da história.


Utolândia (1)

A Jangada


 Cheguei à Utolândia há muitos anos. Tantos que nem lembro de que modo aqui vim parar.


Como presumo que saibam, a Utolândia é assim uma espécie de jangada de pedra, como um dos seus grandes escritores lhe chamou.


A bem dizer, a jangada não é apenas a Utolândia, já que tem um vizinho bem maior em extensão e onde se falam pelo menos quatro línguas diferentes.

Tanto a Utolândia como os seus vizinhos partilham esta jangada e tanto uns como outros usam bússolas que apontam sempre uma direcção diferente para o norte. Isto é, apontam sempre o desnorte. 


O grande escritor que lhe deu o nome teve de fugir para o país vizinho, para uma pequena ilha que gravitava em torno da jangada. Os seres menores, que mesmo em manada se sentem ameaçados, perseguiram-no e ele fugiu, embora alguns anos depois andassem a gritar que "é nosso, é nosso".


Olhando o mapa do continente próximo, verifica-se na sua ponta ocidental, um recorte que corresponde exactamente a uma ponta da jangada, na parte mais longínqua habitada pelos nossos vizinhos.


Dizem as lendas que os deuses, por algum motivo desconhecido, ou que os contadores de estórias fingem não conhecer, resolveram separar este bocado do resto do continente e pelo mar o deixaram à deriva.


As línguas mais viperinas e heréticas da Utolândia dizem que não foram os deuses, mas sim os vizinhos continentais que, fartos de aturar os agora mareantes forçados, fizeram explodir a ligação de terra mais estreita, provocando a separação. Parece que a intenção era apenas despachar a Utolândia, mas como dava muito trabalho recortar um rectângulo, optaram pelo modo mais fácil e económico. Assim protegiam-se também de um eventual contágio que os da Utolândia tivessem propagado aos seus vizinhos, como outras línguas viperinas, estas do continente, diziam em surdina. 

Os governantes da Utolândia aproveitam ora a lenda dos deuses ora a versão dos viperinos para culpar quem mais lhes convém das desgraças que diariamente acontecem aos utolandeses. Responsáveis e competentes como são, suportam estoicamente o fardo de aturar os conterrâneos. Há pouco, alguém sugeriu que se culpassem as bússolas, mas como são fabricadas pelo primo de um tio do padrinho de um dos governantes, tudo se silenciou.



Hoje, fico por aqui. Amanhã, se não me esquecer, porque a memória já não é o que era, contarei mais alguma estória verdadeira da Utolândia.


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Prepotência e chantagem ou o direito do mais forte à liberdade.

 


Costumava dizer-se que o estado é pessoa de bem. Sempre discordei desta afirmação porque não é essa coisa mais ou menos abstracta que é de bem ou de mal. Quando muito, os governos poderão ser de bem ou de mal. Ainda assim, não deixa de ser uma abstracção. As pessoas que estão no governo é que são pessoas de bem ou de mal.

Quando uma pessoa mente, falseia, manipula informação, usa e abusa do seu poder decisório violando a lei ou usando interpretações “artísticas” para levar a cabo as suas intenções, não pode ser chamada pessoa de bem.

As promessas que são mera propaganda são um sem fim. Tancos, os que se passearam pela pista do aeroporto e uma ou duas semanas depois viram o seu exemplo ser seguido, apesar das absolutas garantia de segurança, a poluição do Tejo, a reforma para quem tivesse começado a trabalhar (descontar) aos 12 anos e tivesse 40 anos de trabalho e sessenta de idade (gostaria de conhecer um só), o problema da urgência hospitalar que na semana anterior às últimas eleições estava resolvido e que depois das eleições se resolveu encerrando a urgência, são apenas uma pequena amostra de que as pessoas do (s) governo (s,) só usando uma semântica verdadeiramente artística poderão ser consideradas pessoas de bem.

Com tal modelo na governação(?), a prática estende-se a várias instituições. Um dos casos mais revoltantes e moralmente repelente é o que manda doentes em estado terminal trabalhar. Normalmente as juntas médicas são consideradas culpadas. No entanto talvez não seja bem assim. Pode admitir-se e há com certeza gente que, seja porque está numa situação de desemprego e não arranja subsídio nem trabalho, seja por outra situação de sobrevivência ou simplesmente porque não quer trabalhar, recorra à baixa. Não estando doentes, é óbvio que os médicos não podem agir como “santa casa da misericórdia”. No entanto, há casos como os já referidos doentes em estado terminal, que são mandados trabalhar. Erro dos médicos, imposição da lei que regula as faltas ou simplesmente prepotência e má fé de quem manda trabalhar?

Eis um exemplo: Funcionária pública submetida a mastectomia para extracção de tumor maligno. A legislação prevê até dezoito meses de baixa a que se podem seguir mais dezoito. Cumpridos estes trinta e seis meses ou o funcionário regressa ao trabalho, ou pede aposentação por incapacidade permanente e absoluta, ou entra automaticamente em licença sem vencimento até atingir a idade de reforma. Poderá receber uma reforma “social” durante este período. Também poderá dar-se o improvável caso de a junta da caixa geral de aposentações considerar a reforma por incapacidade permanente e absoluta.
Ainda que possamos discordar da decisão da junta ou da passagem automática a licença sem vencimento, é o que está na lei.

O que não está na lei é que uma junta médica da ADSE remeta para a junta médica da CGA para avaliação de eventual reforma por incapacidade permanente e absoluta, esta diga que não cumpre os critérios para essa reforma e o serviço empregador obrigue a funcionária a regressar ao trabalho, apesar de continuar com baixa médica por incapacidade temporária.

Qual o fundamento? A lei nº 35/2014, artigo 34º números 4 e 5. Só que o artigo 34º refere claramente os tais dezoito meses. E quantos meses se passaram desde o início do período de baixa? Quatro.

Temos então uma junta médica da ADSE que avalia a doente e manda para a CGA porque os relatórios clínicos e exames médicos apontam para um eventual encaminhamento para reforma por incapacidade permanente e absoluta. Portanto, a junta da ADSE confirma a doença, pois não faria qualquer sentido remeter para CGA se assim não fosse e teria mandado a funcionária apresentar-se ao serviço. Por sua vez a CGA não nega a doença, embora não considere que seja motivo para reforma por incapacidade permanente e absoluta. Conclui-se que a doença temporária está implicitamente confirmada.

Quem é que se sobrepões à lei através de uma interpretação artística e abusiva? A entidade empregadora. Ou seja, impõe-se o direito do mais forte.

Ah! Pode recorrer-se da decisão da CGA. Mas para quê se a própria funcionária tem a expectativa de recuperar após o tratamento?

Então qual a solução? Recorrer a um advogado e intentar um processo judicial, sabendo que se não se apresentar ao serviço passa automaticamente a licença sem vencimento? Esperar, sabe-se lá quantos anos, que o tribunal eventualmente venha a decidir a seu favor? Quem é que, doente e dependente do seu salário, o pode fazer?

Esta foi e é a chantagem. Agora a má fé.
Sendo obrigada a regressar ao serviço, a funcionária que a substituía sai imediatamente, perdendo assim qualquer vínculo.

É o duas em uma. E até pode ser que a funcionária doente, farta de tanta chantagem, perseguição e má fé decida reformar-se com metade do vencimento a que teria direito.

Afinal já são três em um.

Este caso é apenas um, das centenas que os jornais têm relatado.

E não, não me parece que os governantes, que objectivamente são os responsáveis por estas situações, sejam pessoas de bem.

A infantilização da humanidade, a abolição dos princípios, a apologia da irresponsabilidade

 

O caso da final de ténis dos USA e da birrinha infantil de quem, não tendo a capacidade de ganhar procura desculpas nos outros, é paradigmático da infantilização e irresponsabilidade geral da humanidade. Bastará ler jornais e sobretudo os comentários sobre o caso, para o constatar.
Objectivamente há uma violação das regras e a aplicação das penalidades previstas. E não há, no caso concreto, mais nada a acrescentar ou a retirar. No entanto, os apologistas da irresponsabilidade logo vieram invocar racismo, como se a adversária tivesse uma pele cor de leite, ou o sexismo. Para as criancinhas irresponsáveis o árbitro, que cumpriu as regras, foi um ladrão sexista. Portanto, a criancinha birrenta e privilegiada perdeu, não porque a adversária tivesse jogado melhor, mas porque o árbitro sexista a penalizou por uma quebra de regras confirmada pelo próprio treinador. A adversária que lhe ganhou, como é sabido, era um homem disfarçado.
A criancinha birrenta e os seus irresponsáveis defensores, a exemplo do que é habitual em quem não cresce, também não tem memória de um outro jogo que também perdeu, onde ameaçou de morte a fiscal de campo que assinalou fora uma bola que a birrinhas queria dentro. Uma ameaça de morte que afectou profundamente a vítima. Os privilégios de que goza a queixinhas fizeram com que para a abusadora não houvesse consequências de maior.

Mas se esta atitude das birrinhas é vulgar em vários desportos, é tristemente alarmante ver como a cultura da irresponsabilidade está bem distribuída por toda a humanidade. Por exemplo a incapacidade de analisar o problema em questão, ou qualquer outro.
Analisar é decompor o problema nas suas várias partes. Para o fazer é necessário, antes de mais, espírito crítico e consequentemente capacidade lógica que implica coerência.

Neste problema geral podemos identificar vários problemas particulares: a autodesculpabilizacao, o desviar a culpa para os outros, a manipulação das emoções dos outros, a desvalorização de regras ou leis quando não convêm para logo a seguir as invocar para atacar e ainda outros. Todos revelam a menoridade moral, a irresponsabilidade, a ausência de princípios que são substituídos por interesses a que dão o nome de valores.

A narrativa dominante que é a do poder financeiro e reproduzida pelos amanuenses políticos e jornaleiros, dá a quem a absorve acriticamente, os valores (interesses) à luz dos quais tudo é “ingerido” e cujos resultados são claramente espelhados nos comentários de jornais ou naquilo que essa mesma narrativa chama redes sociais. É fácil ver como se misturam alhos e bugalhos, como se criam postulados (sem qualquer fundamentação) e como a partir daí se produzem opiniões que pretendem passar por factos. Fiéis aos interesses a que chamam valores, só interessa o imediato, o curto prazo e nada é visto em perspectiva, de forma abrangente, de acordo com princípios. Num mundo acrítico, onde o que importa é a opinião, tudo é relativo. Assim, todos exercem o seu “direito” à opinião que não se importa com princípios ou com a verdade. Tudo se faz por reacção e não por acção.
Se o assunto inicial é exemplar do que se passa por todo o mundo, o que actualmente acontece no nosso país e governação (?) é outro exemplo prático do que é irresponsabilidade, incompetência, manipulação e completa ausência de princípios.
Nem vale a pena falar das falsificações e manipulações produzidas sobre os professores e reproduzidas por jornais e TVs. Nem vale a pena falar da confrangedora pobreza argumentativa de ministros ou assessores, seja do ambiente, da defesa, da segurança, ou qualquer outro. Ou falar da banha da cobra que diariamente pretendem vender.
Talvez falar dos descarrilamentos, da falta de pessoal para manutenção de comboios, da supressão de comboios, da falta de pessoal auxiliar, das cada vez maiores falhas de pessoal e material no SNS. Mas desses assuntos os jornais, propriedade de diversos grupos económicos, porque lhes interessa, vão falando no intervalo do que é verdadeiramente importante, o futebol. E aqui podemos encontrar uma outra forma de manipulação, que é o não dito. Quantas vezes veem nos jornais ou TVs notícias sobre a luta de trabalhadores na fábrica x ou y? Da greve dos trabalhadores da distribuição? Dos call center?
Ah! Pensavam que só os malandros dos privilegiados professores é que reclamavam e faziam greve?

Em conclusão, condenados por vontade própria à caverna de Platão, mais do que fazer a apologia da ignorância, faz-se a apologia da irresponsabilidade.

O bode expiatório e a maioria absoluta ou brevíssima história de infâmia.

 


Desde que a história é história que toda a governação é descrita como violência, prepotência, roubo, assassínio, escravidão. Depois, os gregos inventaram uma coisa a que chamaram democracia e que basicamente consistia em dois clubes de ricos dividirem, mais ou menos alternadamente, o poder. Estabeleceram algumas regras e lá foram à conquista, democraticamente, do seu poder. Em vez da espada usavam a língua na praça pública.
Convém também esclarecer os mais crédulos que as mulheres estavam excluídas do clube, assim como os estrangeiros (não nascidos em Atenas) e obviamente os escravos, ou seja, assim por alto, mais de 80% da população.
Estes números, por si só, seriam suficientes para esclarecer que o objectivo era o poder para o clube e sobretudo pessoal e não qualquer interesse em beneficiar outros a não ser que daí adviesse algum benefício próprio.
Lentamente, o poder da língua foi-se afirmando e, em alguns países mais ricos, graças ao saque que durante séculos foram efectuando pelo mundo fora, começou a tomar forma um estilo de governação a que chamaram democracia e que, basicamente, a exemplo dos atenienses, se dividia em dois clubes que procuravam modos mais eficazes de conquistar e manter o poder sem se matarem uns aos outros. A ascensão da burguesia mercantil exigia alguma paz para a circulação de mercadorias e a nobreza decadente necessitava do dinheiro dessa burguesia. A espada agora era usada contra quem estava contra esta paz. Assim o poder e os seus benefícios chegaram aos nossos dias, com esse nome que concentra todas as hipocrisias e infâmias.
As ditaduras clássicas, um pouco por todo o mundo, têm desaparecido, não por qualquer razão humanitária, mas apenas porque são um entrave à economia global e, consequentemente, à ditadura financeira coberta com a capa de democracia.
No nosso país persiste ainda a perigosa ideia de que a democracia é uma governação benigna, como se toda a governação não fosse o exercício do poder de uns quantos sobre todos os outros.
No nosso país, conhecido internamente como de brandos costumes, apesar dos mais de dois mortos diários nas estradas, das vinte mulheres assassinadas pelos maridos/companheiros, já este ano, apesar dos 19 deputados arguidos em vários processos, apesar dos onze denunciados por terem negócios com o estado, coisa insignificante que a ética de fusão considerou muito bem, apesar das viagens pagas em duplicado e que o chefe do centro de emprego considerou muito bem porque os coitados ganham muito pouco, apesar de inúmeros autarcas arguidos e até condenados, somos democraticamente uma democracia.
Uma democracia onde cada partido mente o que for preciso para manter ou conquistar o poder e, obviamente, o seu benefício pessoal, que tanto pode ser financeiro como uma oportunidade de mostrar as penas de pavão. Paralelamente, embora não seja essa a intenção, é também uma oportunidade de mostrar a incompetência, a ignorância, a má fé. Estes são os que rodeiam o chefe e como se sabe o chefe nunca quer à sua volta gente mais inteligente. São sobretudo estes que funcionam como amanuenses executores de um plano de manutenção do poder. Cabe a estes o papel de agitadores. Aos outros mais inteligentes cabe o papel de propagandistas. Os primeiros são papagueadores incapazes de ver as próprias contradições e inconsistências. Os segundos são especialistas em manipular a linguagem, a exemplo dos antigos sofistas. A sua propaganda é simultaneamente agitação.
Sendo o objectivo a conquista do poder para obtenção de benefícios próprios, podemos verificar como, neste preciso momento essa intenção leva a actuações objectivamente infames.
Porque é o partido que está no poder, atentemos a três ou quatro factos que visam a obtenção da maioria absoluta sem olhar a meios.
Dois factos que aparentemente nada têm a ver com o PS: o partido de Santana e o “sindicato” de professores stop. Dividir para reinar é um princípio elementar da conquista do poder e naturalmente da agitação e propaganda. Perguntemo-nos quem soprou ao ouvido do Santana a ideia da criação de um novo partido? Assim o PSD ficaria ainda mais dividido e perderia peso na oposição ao PS. Quem soprou ao ouvido do sujeito que fundou o stop a ideia de um novo sindicato? No que respeita a sindicatos o PS tem uma tradição de divisionismo que vem pelo menos desde Soares/Gonelha. Pôr um sindicato a realizar um abaixo assinado para ser discutido na assembleia algo que já constava do orçamento de 2018 é matar dois coelhos com uma só cajadada: provocar uma divisão nos professores e fazer com que algo que já constava no orçamento perdesse a validade e, entre outros factos, que ficasse escondida a verdadeira má fé com que o governo enganou os professores com algo que nunca teve a intenção de cumprir, como de resto ontem ficou bem claro com a intervenção de um ministro que nem sabia o que estava a negociar.
Na estratégia do poder absoluto o PS (como de resto PSD ou outro partido) nunca olhou a meios. Ontem veio a lume que a página do partido “ala liberal” no Facebook foi originalmente uma página de apoio a António Costa. O seu líder, que entretanto se demitiu, acusou Santana de lhe ter copiado o seu programa. Interessante coincidência, não?
A infâmia, para não lhe chamar outra coisa, nos tempos recentes torna-se mais notória quando oficialmente decidem atacar a maioria absoluta. Primeiro arrumam com o assunto Sócrates. No mesmo dia, Costa, vários dirigentes do PS e blogues de agitação e propaganda do PS demarcam-se de Sócrates com o silêncio deste, o que indicia o seu acordo com a estratégia. Os ataques a professores acentuam-se com declarações falsas que, vindas de quem têm vindo significam, porque as pessoas em questão são suficientemente inteligentes, pura má fé e deficiência de carácter. Por exemplo as promoções automáticas e sem avaliação, o que é falso e basta ler o decreto de lei para o confirmar.

Colocando os professores como o bode expiatório e causadores de todos os males, o PS arranja uma forma de distrair o pessoal da incompetência manifesta na sua própria argumentação plena de má fé.
Um dos exemplos mais ridículos desta má fé é a prova de incompetência no anúncio da reforma a pessoas com sessenta anos e que tivessem começado a trabalhar aos doze. Ora em 1967, ano em que com doze anos comecei a trabalhar, a idade mínima legal era de catorze anos. De 1967 a 2017 são 50. Se lhe somarmos os catorze legais são 64 ou os doze ficcionais serão 62. Quem então poderá ser beneficiado? Ninguém. Pura incompetência e má fé.
Mas enquanto se discutem professores não se fala dos vários descarrilamentos de comboio já este ano, da quantidade de comboios avariados, do ridículo de um ar condicionado que não funciona nos Alfa ou de um ministro a fazer horários de comboios para a linha de Cascais. Ou do pseudo esforço de contratar médicos quando o número de vagas é inferior ao de médicos reformados e muito abaixo das necessidades. E ainda, acerca do mesmo assunto, sobre o motivo porque vagas para médicos de família ficaram por preencher. Ou porque continuam enfermeiros a emigrar. Ou porque continuam uns e outros a trabalhar como especialistas e a receber como indiferenciados.
A táctica de pôr trabalhadores, uns contra outros, sempre rendeu e basta pôr os agitadores mais rascas a mandar umas bocas e a inflamar os ânimos.

Os professores como bode expiatório são apenas um instrumento para a maioria absoluta e para fazer render até à proximidade das eleições. Depois, já bem perto, dá-se uma bolachinha ou um biscoitinho e lá vêm mais uns votos. Entretanto, por exaustão, alguns já estarão prontos para aceitar qualquer coisa. Para o governo basta continuar a fazer aquilo que melhor fazem: nada.

Os outros como objecto para satisfazer os interesses próprios é intrínseco a todos os partidos. É também preciso não esquecer que foram os vários partidos ao longo de décadas que criaram, em benefício próprio, a situação de que agora se queixam.

A infâmia é generalizada.

Os professores e a cosa nostra governamental

 


O PS quer a maioria absoluta.

Para o conseguir pôs a sua máquina de agitação e propaganda em acção. A agitação e propaganda, como devem saber, usa o método análogo ao dos feirantes e vendedores de banha da cobra. Os utilizadores da agitação e propaganda têm o mesmo objectivo: ganhar em proveito próprio, não importa quem seja enganado.

A primeira manifestação óbvia de que a máquina estava a mover-se foi o conjunto concertado de declarações a demarcarem-se de Sócrates, curiosamente umas duas ou três semanas antes de vir a público a notícia de uma off shore do primo, com mais de 200 milhões de euros depositados.

Depois a cuidada gestão das sondagens e o lançar de notícias e propostas de negociação com professores para verificar como mexiam as sondagens. Primeiro não há contagem dos nove anos de congelamento. Depois já se contam dois e é pegar ou largar. Paralelamente os blogues da agiprop e outros escribas vão afirmando, insinuando, difamando.

Então não é que estes malandros privilegiados querem o que os outros não têm? Estes malandros que estão há nove anos com carreiras congeladas, alguns milhares que viram ser-lhes retirado um escalão e consequente redução salarial, acham que são secretários de estado? Assessores? Deputados? E já agora não querem também subsídio de deslocação? E viagens pagas em duplicado? Moram em Braga e são colocados em alcácer do sal apesar de vinte anos de trabalho? E depois? Deviam ter-se inscrito numa jotinha e já tinham as mesmas condições.

Quando além dos professores olhamos os médicos do SNS, os enfermeiros, etc. é fácil constatar que nenhuma medida estrutural é posta em prática, até porque comprovadamente não há competência para tal e o único e verdadeiro interesse é o poder, lixe-se quem se lixar.

Sobre competência e honestidade basta ler ou ouvir a confrangedora argumentação sobre fogos, poluição no Tejo, assalto a Tancos, viagens e subsídios de deputados e ficamos esclarecidos.

Falo do PS porque é o que está no governo. No entanto os últimos 40 anos são elucidativos sobre a metodologia de qualquer partido que tenha passado pelo governo. A única diferença é que há alguns anos ainda havia algumas pessoas competentes e, surpresa das surpresas, um ou dois honestos ou pelo menos com vergonha na cara.

Concluindo, o PS burlou as esperanças de quem nele e nas suas promessas confiou. O PS chantageia quem reclama o que lhe foi roubado, acusando a vítima da sua própria (PS) incompetência. E podemos falar de roubo porque quando não se devolve o que foi tirado e se aumentam salários em causa própria é de roubo que falamos.

Como é óbvio, os professores vão ser, até às eleições, o centro das atenções, porque já há alguém a quem acusar de intransigência e culpar pelos insucessos próprios. Entretanto, outras questões como falta de médicos e enfermeiros, serviços fechados no Santa Maria, pediatria do S. João e tantos mais, vão sendo ignorados.

As maiorias absolutas já provaram à exaustão que, no nosso país (como em qualquer outro), conduzem à absoluta tentação da corrupção.

Esqueçam o que ouvem e vos dizem. Façam como as crianças na idade dos porquês, perguntem e voltem a perguntar e usem o pensamento crítico de gente madura.

A apologia da morte

 


A narrativa dominante, difundida por jornais, tv, políticos, universidades, revela uma perversão sem limite da linguagem e, consequentemente, da percepção do mundo. Cria e alimenta um “paradigma” ou mito, onde o que é humano não existe senão em função do económico. Um paradigma que não é sequer discutível, porque ele próprio fornece as perguntas e as respostas.

Um dos exemplos mais significativos e perigosos é o assunto quente do momento, a eutanásia.
Não é algo que esteja explícito, mas está implícito nos discursos sobre eutanásia e no seu fundamento.

É interessante que uma das frases mais propaladas seja “por uma morte digna”, como se houvesse alguma dignidade ou indignidade no acto de deixar de estar vivo. O truque (porque é um truque) é colocar em primeiro plano a morte e não a vida.

Porque é a vida que tem dignidade e é a vida que tem de ser protegida. Porque é o doente que espera meses por uma consulta, que precisa de ver protegida a sua vida e a sua dignidade. Porque é o doente que não tem médico ou enfermeiro, que precisa de ver protegida a sua vida e dignidade. Porque é o idoso que nem dinheiro tem para pagar a renda de um quarto e muito menos para comprar os medicamentos, que precisa de ver protegida a sua vida e dignidade. Porque é o idoso que vive com a sua solidão, que precisa de ver protegida a sua vida e dignidade.

E são milhares, centenas de milhar, as vidas que estão nestas condições.

A vida é feita de escolhas e quando se escolhe lutar pela morte antes de lutar pela vida e pela sua dignidade, há uma clara ignorância das prioridades e um oportunismo desprezível de quem demagogicamente agita a morte para ocultar os vivos.

Há pessoas “importantes “ e até reconhecidos filósofos que defendem uma morte digna? Pois há, mas o facto de existirem não lhes dá razão nem anula a perversão de valores ao colocar o assunto da morte ignorando a vida. A sua atitude é análoga à de algumas soluções de trânsito: numa rua com dois sentidos, devido ao permanente estacionamento em segunda fila, que se faz? Ignora-se o prevaricador e a rua passa a ter um só sentido. Ou seja, premeia-se a infracção.

O idoso está só? O doente tem uma doença terminal? O doente não tem como pagar o hospital? O seguro não paga mais? Os herdeiros querem livrar-se do doente antes que a herança acabe? Eutanásia já.

Ah! Não é nada disso? Pois. Então vão ver estatísticas de há vinte anos na Holanda. Ou estatísticas de seguradoras e de doentes abandonados.

Nenhuma, mas mesmo nenhuma discussão sobre a eutanásia é uma discussão honesta antes de se resolver o problema dos vivos.

Do que acabei de dizer poderá depreender-se que estou ao lado dos que se opõem à eutanásia. Não, não estou. Simplesmente, porque maioritariamente não são pela defesa da vida e dignidade do doente, mas pela defesa de um dom oferecido por um deus. Não é um acto humano em defesa do humano, mas a intransigente defesa do dogma da vida como doação divina. Não defendem a dignidade humana mas apenas o seu deus. No entanto, um deus que precisa de tais defensores coloca-me sempre a dúvida sobre a sua capacidade e, sobretudo, sobre as reais intenções dos seus auto nomeados ajudantes.

Os cuidados paliativos parecem-me uma boa opção quando a medicação para a cura já não é eficaz. Parece-me uma boa opção para preservar a dignidade da vida que restar.

No entanto, os cuidados paliativos são um negócio que muitos não podem pagar e morrer fica mais em conta.

Posto isto, defendo a possibilidade da eutanásia, mas só depois de se praticar, em concreto, a defesa da vida e da sua dignidade.

Para isso não bastam decretos de faz de conta e não é com a mediocridade intelectual e moral dos políticos que temos que lá se chegará. Eles são o modelo da sociedade e, uma sociedade que se alimenta de futebol, casas de segredos, comentadores coscuvilheiros e afins, não está apta para discutir e muito menos votar sobre algo mais complexo que a melhor cerveja: super bock ou sagres.

A ignorância

 


(a propósito de um poste lido hoje num blogue que sigo: “horas extraordinárias”)

Pelo menos desde os últimos cinquenta anos, há uma apologia da ignorância e, por acréscimo, da estupidez, que provém de vários sectores da sociedade, sendo o mais insuspeito a Universidade (ler ou reler Allan Bloom “a cultura inculta”) que se constitue como o novo centro difusore do obscurantismo.

Todo o verdadeiro conhecimento é desprezado e em seu lugar reaparecem (ou aparecem) as mitologias religiosas e outras que conferem aos seus seguidores a inabalável convicção da sua verdade. Essa convicção ignora o outro e consequentemente tudo o que é verdadeiramente humano na sua infinda variedade.

Essa variedade é a diferença que os vários puritanos não podem admitir porque põe em causa a “sua própria verdade”.

Os fanatismos, os nacionalismos, os ideologismos, têm todos o seu suporte na ignorância e conduzem sempre a uma forma de violência sobre o pensamento que reflecte e pergunta e procura a resposta. A sua expressão é visível na mediocridade de políticos, jornais, dirigentes associativos, etc. e pode ter consequências extremas como a proibição de obras “impuras” ou o ataque a Alcochete que, embora diferentes na sua espectacularidade, têm a mesma raiz.

Democracia e o acesso à corrupção

 


(texto publicado em Julho de 2014)

(Nota: este texto põe em causa os fundamentos da fé de muita gente pelo que já estão avisados para não haver surpresas)

Os crentes costumam dizer que a fé é que nos (a eles) salva. Eu direi que a fé é o que
nos condena.
Sim, já sei, mais uma vez estou a “meter-me” com os crentes e não mostro por eles
qualquer respeito. Isso é um pouco exagerado porque ao contrário dos supersticiosos, eu procuro fundamentar o que digo com argumentos verificáveis. É escusada a menção à fé? Não, não é, porque é ela que nos condena a ficarmos fechados em nós mesmos, servos de mitologias que nós próprios criámos e que vergonhosamente servimos. É a fé que nos condena à servidão eterna (nesta terra, porque não existe uma única prova de qualquer outra vida). É a fé que nos torna escravos e só quando alguém se atreve a combater essa escravidão é que o escravo se revolta. Não quer de modo algum perder o seu estatuto de escravo onde tudo está devidamente explicado,onde não há dúvidas sobre o caminho a seguir, onde o bem e o mal estão claramente separados.
O mal, obviamente, são sempre os outros. São os outros que roubam as pensões, os
salários, os empregos. Os outros que quando maldizemos o Big Brother ou a casa dos
segredos não vêm a casa desligar a TV e nos deixam ver essas coisas. São os outros que
obrigam os escravos a assistir ao futebol, com mais de 50% de audiências. A culpa
também é de jornais e televisão que não falam noutra coisa e até obrigam a comprá-los e a pagar a sport tv.
E depois? Já não se pode ser escravo? Não é para isso que existe a democracia? Não é
para defender o direito de ser escravo?

A liberdade tem um peso insuportável. A
responsabilidade é uma coisa terrível, diria mesmo um mal. É tão bom podermos
apontar o dedo e dizer: aquele é que é um sacana, um filho daquela senhora que afinal
trabalha mais que os filhos, um corrupto. Apontar o dedo é um direito democrático.

Ser escravo é um direito democrático.
Portanto, agora que já vimos quem são os bons, espreitemos os maus.
Aquilo que a democracia tem de bom (depende obviamente da perspectiva) é o
acesso à corrupção. A democracia foi desde a sua invenção na Grécia do século V (ac)
salvaguardada com um sistema de rotatividade no poder e com várias instituições que se controlavam umas às outras, impedindo (supostamente) que um grupo aí permanecesse demasiado tempo. Ou seja, na prática, a democracia foi inventada para gerir o poder quando dois grupos demasiado fortes e inteligentes chegaram à conclusão de que em vez de se matarem uns aos outros era mais rentável e tranquilo partilharem a pilhagem. Inventaram então uns quantos direitos e deveres e construíram uma ideologia que falava de direitos e deveres e dessas coisas que toda a gente, bons e maus, gosta de falar, sobretudo para fingir que se importa. Os bons para se fingirem solidários (moralmente, claro está) e os maus para fazerem de conta que se importam, embora todos (bons e maus) saibam que é só publicidade enganosa.
Dizia eu que a grande vantagem da democracia relativamente à ditadura, é um maior acesso à corrupção. Numa ditadura só os do regime beneficiam (pelo menos com a
grande corrupção). Numa democracia todos (ou quase) têm acesso a essa corrupção,
bastando para isso inscrever-se num partido, de preferência ainda jotinha, assistir a
uma reuniões, participar nos jogos de bisca lambida e pronto, já está apto a ser
assessor ou até ministro ou quem sabe, presidente. Depois vão fazendo umas rotações de lugares sendo que, quando no poder, têm o cuidado de não mexer muito nos tachos dos concorrentes porque mais tarde ver-se-ão na mesma posição.
Isto é o que verdadeiramente é a democracia. O resto, como já disse, é publicidade enganosa.
Claro que os bonzinhos que esperam, esperam, esperam, acham que é o poder do povo. Só têm razão na parte do poder. O resto, como qualquer deles saberia, se o quisesse, se usasse a sua liberdade e responsabilidade, é apenas treta.
A democracia é inventada para servir menos de 10% da população de Atenas (isto são
contas por alto). Senão vejamos: as mulheres não tinham direito a voto ou participação (lá se vai 50% do “povo”). Os escravos também não, nem os estrangeiros.
Deve acrescentar-se que o trabalho era muito mal visto entre a aristocracia ateniense.
Em conclusão, a democracia, ou seja a partilha do poder e consequente saque, estava reservada a uma escassa minoria que nada produzia mas tudo possuía.
E o que é que 25 séculos de história nos ensinaram? Nada, rigorosamente nada.
Porquê? Porque a salvação é dos mansos, o reino é dos mansos, só os servos se salvam. Não foi o que o anterior cardeal apelou nas suas últimas intervenções públicas? Ao servilismo? À não revolta? Não é essa a atitude geral de todas as igrejas, seja qual for o credo que dizem defender? Não são todas, sem excepção, apenas um braço servil ao serviço do poder e que com ele se confunde?
De vez em quando o conteúdo do tacho começa a escassear. Então o grupo no poder trata de afastar previamente alguns concorrentes o que até contribui para uma melhor publicidade, como se pode ver por estes exemplos: Ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy detido para interrogatório (http://www.publico.pt/mundo/noticia/expresidente-sarkozy-detido-para-
interrogatorio-1661164) ou Ex-ministro grego condenado a 20 anos de prisão por branqueamento de capitais (http://www.publico.pt/mundo/noticia/exministro-grego-
condenado-por-branqueamento-de-capitais-1608303).
Boa publicidade, mas muito, muito enganosa. Como está bom de ver, a incompetência
e descaramento também têm limites e de vez em quando é preciso mudar algo para que tudo permaneça igual. É nestas ocasiões que a fé dos servos se sente recompensada. Sempre serviu de alguma coisa esperar. Mas o que é que de verdadeiramente melhorou na sua situação? De facto apenas a sua fé foi reforçada, o que na sua perspectiva é positivo mas na minha é negativo, uma vez que apenas a sua situação de servo foi confirmada.
Mas alegrem-se. Nem tudo está perdido. O futebol está quase a recomeçar. Nas primeiras páginas já há nomes de grandes contratações de quem ninguém ouviu falar.
Certamente deve estar para aí a aparecer outro grande programa televisivo para entretenimento das consciências

Os indigentes (2)

  Um dos filósofos de referência (Hegel) dizia (mais ou menos) que tudo traz em si a semente da sua própria destruição.  Olhando a Europa de...