quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Utolândia (1)

A Jangada


 Cheguei à Utolândia há muitos anos. Tantos que nem lembro de que modo aqui vim parar.


Como presumo que saibam, a Utolândia é assim uma espécie de jangada de pedra, como um dos seus grandes escritores lhe chamou.


A bem dizer, a jangada não é apenas a Utolândia, já que tem um vizinho bem maior em extensão e onde se falam pelo menos quatro línguas diferentes.

Tanto a Utolândia como os seus vizinhos partilham esta jangada e tanto uns como outros usam bússolas que apontam sempre uma direcção diferente para o norte. Isto é, apontam sempre o desnorte. 


O grande escritor que lhe deu o nome teve de fugir para o país vizinho, para uma pequena ilha que gravitava em torno da jangada. Os seres menores, que mesmo em manada se sentem ameaçados, perseguiram-no e ele fugiu, embora alguns anos depois andassem a gritar que "é nosso, é nosso".


Olhando o mapa do continente próximo, verifica-se na sua ponta ocidental, um recorte que corresponde exactamente a uma ponta da jangada, na parte mais longínqua habitada pelos nossos vizinhos.


Dizem as lendas que os deuses, por algum motivo desconhecido, ou que os contadores de estórias fingem não conhecer, resolveram separar este bocado do resto do continente e pelo mar o deixaram à deriva.


As línguas mais viperinas e heréticas da Utolândia dizem que não foram os deuses, mas sim os vizinhos continentais que, fartos de aturar os agora mareantes forçados, fizeram explodir a ligação de terra mais estreita, provocando a separação. Parece que a intenção era apenas despachar a Utolândia, mas como dava muito trabalho recortar um rectângulo, optaram pelo modo mais fácil e económico. Assim protegiam-se também de um eventual contágio que os da Utolândia tivessem propagado aos seus vizinhos, como outras línguas viperinas, estas do continente, diziam em surdina. 

Os governantes da Utolândia aproveitam ora a lenda dos deuses ora a versão dos viperinos para culpar quem mais lhes convém das desgraças que diariamente acontecem aos utolandeses. Responsáveis e competentes como são, suportam estoicamente o fardo de aturar os conterrâneos. Há pouco, alguém sugeriu que se culpassem as bússolas, mas como são fabricadas pelo primo de um tio do padrinho de um dos governantes, tudo se silenciou.



Hoje, fico por aqui. Amanhã, se não me esquecer, porque a memória já não é o que era, contarei mais alguma estória verdadeira da Utolândia.


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