segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Dizer o mundo

 


A linguagem diz o mundo. Por isso, de algum modo, o mundo habita na linguagem e esta é também a nossa morada (ver no fim do texto diferença entre linguagem e língua).

Não pensamos sem uma linguagem e usamos sobretudo a língua, ainda que possamos incluir símbolos e sinais que pertencem à linguagem mas não à língua que é, essencialmente, conceptual.

Pensamos sobretudo através de conceitos. Por isso, quando não há rigor na língua, perverte-se a própria linguagem, porque se introduz demasiado ruído na comunicação e se desvaloriza o que é dito, porque se entra num perspectivismo (não lhe quero chamar relativismo, que é outra coisa) idiota.

Ora a linguagem é a forma de dizer o mundo e é o mundo para quem o diz.

Mas é, antes ainda, o que nos permite aperceber o mundo para depois o dizer.

Há um primeiro momento em que tomamos consciência de algo que não somos nós e simultaneamente que há o nós. É uma consciência básica, talvez aquilo a que Damásio chama “consciência central” e depois há o nomear, julgar, classificar tudo o que se apreende. Deste modo se vão acrescentando informações à nossa consciência básica e construindo o que (talvez) Damásio chama “consciência ampliada” onde se “aloja” o conhecimento.

Devo desde já esclarecer que Damásio não é minimamente responsável pelas minhas analogias e interpretações, eventualmente muito longe das suas intenções.

Então olhemos o que nos rodeia, o que apercebemos e o que progressivamente vamos sendo capazes de dizer sobre o mundo.

À medida que vamos alargando a nossa consciência (ampliada) e, portanto, o nosso conhecimento, o mundo que nomeamos torna-se mais vasto e mais compreensível apesar das novas perguntas. Também a linguagem e o nosso domínio sobre ela tornam (deveria tornar) a comunicação mais fácil, mais objectiva.

Parece-me ser hoje consensual que o que dizemos sobre o mundo é apenas o que conseguimos dizer e não o que o mundo é em si mesmo. Isto é o que quero dizer com “a linguagem diz o mundo” ou “a linguagem é a casa do mundo”.

E porquê? Não apenas pelas palavras que usamos para o descrever, mas pelo significado e sentido que têm para nós e tornam o mundo no nosso mundo. Porque quando olhamos à nossa volta julgamos e classificamos tudo aquilo de que nos apercebemos e fazemo-lo de acordo com a nossa capacidade intelectual e com a nossa “bagagem” conceptual, mesmo que de forma inconsciente. O nosso mundo é, então, exactamente o que nós somos (conhecemos).

Se o nosso pensamento usa principalmente a língua e esta é sobretudo conceptual, será conveniente haver rigor na língua.

No entanto, como é claramente visível, esse rigor não existe e, se em matérias corriqueiras não costuma ser demasiado importante, outras há onde as consequências podem ser fatais.

Por exemplo, verdade, princípios, valores, ética, moral. Terão para todos o mesmo significado? E o sentido? É que significado e sentido não são o mesmo. Significado podemos encontrá-lo num dicionário. Mas sentido precisa de algo mais. Precisa de ser vivido, vivenciado.

Costumo dizer que há uma narrativa dominante, a do poder. Não há necessariamente uma intencionalidade expressa que suporte essa narrativa. Ela existe quase autonomamente como resultado das infindáveis sub narrativas de políticos, jornalistas, universidades (talvez os actuais centros difusores do obscurantismo) e até dos politicamente correctos.

Uma das suas funções é eliminar a distinção entre sentido e significado. A partir daqui, por exemplo, a mentira deixa de existir e é substituído pela inverdade. Uma falsificação curricular deixa de ser falsificação e passa a ser omissão, embora seja necessário muito malabarismo para que um acrescento seja chamado de omissão.

Antigamente falava-se de princípios, onde se incluíam insignificâncias como a palavra dada, a honra, a verdade, a virtude, a ética, a moral. Enfim, insignificâncias. Convenientemente começou a deixar de se falar de princípios e a substitui-los por valores. Os princípios eram o que vinha no início e determinava os actos. Os valores não deixam de ter uma relação com a economia e são aquilo que vale num determinado contexto. Ou seja, são o que corresponde aos interesses.

Estão agora a ver porque é que as comissões de ética servem para justificar tudo à medida dos interesses?

Chegado aqui, espero ter conseguido deixar claro como a linguagem, que nos permite comunicar e viver a vida e o mundo, se tornou uma fonte de ruído que põe uns contra outros, que através das sub narrativas subsidiárias da narrativa dominante matam a esperança e o sonho.

Vemos e dizemos hoje o mundo sem conserto ou futuro e procuramos escapes para iludir a impotência. Mas nunca, nunca olhamos para nós próprios e decidimos agir, por exemplo, coerentemente em prol da vida. E não, viver a vida não é exactamente fugir para os copos ou viajar indefinidamente, embora não haja qualquer problema em fazê-lo pontualmente.

E agora que já dei a minha de moralista, deixo-vos com uma questão: como foi possível a ascensão de tanta insignificância, mediocridade, badalhoquice na política, no jornalismo, nas universidades?

Explicação simples:
Linguagem: sistema codificado que nos permite a comunicação (por em comum) e inclui a língua, sinais e símbolos.
Língua: o que nos permite comunicar através da fala e da escrita e obedece a regras (gramaticais)

Ah! E não confundir informação com conhecimento ou sequer com verdade.

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