segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Então, como diria o outro, porque não se calam?

 

É um espanto a ingénua pergunta ou o estafado lamento do porquê e da inutilidade de tanta guerra que só traz malefícios ao mundo.

Ocorre-me sempre esse comentário “inteligente” que aponta a necessidade de aplicar o dinheiro que se gasta na guerra, para o alívio da fome e erradicação da doença.

Ocorre-me também o desprezo que a generalidade destes “ingénuos” têm pela História, não aquela que fala do grande infante Henrique como iniciador dos descobrimentos, mas a do corsário Henrique que “caçava” no mediterrâneo e construiu a feitoria de Arguim, no norte de África, a partir da qual se fez o comércio de especiarias e outros produtos em larga escala, como escravos, com o aval do papa da época. Ou, outro exemplo, que o grande Vasco da Gama tinha as suas caravelas decoradas com caveiras.

Factos “insignificantes” mas que ilustram bem os métodos de qualquer conquistador, seja Alexandre, Gengis Kahn, Vasco da Gama, Cortez, Ingleses e o império onde o sol nunca se punha ou, nos dias de hoje e há mais de dois séculos, os americanos.

Glorifiquemos pois os grandes feitos técnicos e de coragem e saber dos descobrimentos e esqueçamos esses danos colaterais de milhões e milhões de escravos, assassinatos, violações, roubos e mais recentemente promoção de golpes de estado, apoio a ditaduras, criação armamento e apoio logístico a terroristas.

Ah! Convém agora invocar a contextualização histórica, a justificação de que eram outros tempos ou a clássica “os outros também fazem ou fizeram”.

Pois é, poderia agora perguntar: mas por que continuam a fazer?

Pois, são eles, são sempre eles, nunca nós.

Nós apenas vamos ali ao café, no nosso carrinho, sem nos perguntarmos como obtemos o combustível. Entretanto beberricamos o cafezinho sem nos questionarmos de onde vêm aqueles grãos e aproveitamos para uma conversita de café sobre a exploração, um autêntico esclavagismo, o praticado pelas grandes superfícies comerciais. Posta a conversa em dia, já podemos ir fazer umas compras ao continente ou norte shopping.

Pois é, mas onde é que haveríamos de ir? É mais barato, têm tudo e até estão abertos no 1 de Maio.

Veem porque não é conveniente lembrar as insignificâncias colaterais?

E acabar com a guerra e dar de comer aos subnutridos? Mas isso traz petróleo? Põe os bifes mais baratos? E depois protestávamos contra o quê? Já a guerra produz biliões de dólares, dá emprego a milhões de trabalhadores e, não menos importante, dá emprego a milhares de psicopatas que assim podem matar legalmente quem lhes aparecer pela frente, em vez de andarem (por enquanto) pelas nossas ruas.

E por acaso já pensaram na grande crise mundial em que cairiamos se acabasse a produção de armas? A queda do PIB, o desemprego de milhões e milhões?

Não, não. É preciso continuar a criar guerras para escoar e renovar stocks, manter vários países sob domínio, seja pela chantagem, seja pela força directamente ou por entreposto amigo. É preciso manter a insegurança de uns para tranquilidade de outros.

É, sobretudo, necessário abolir o espírito crítico. Talvez até considerá-lo uma doença. A colocação de imbecis nos ministérios da educação de todo o mundo tem sido um contributo inestimável para a difusão da estupidez e ignorância. A ausência de critérios de rigor e exigência no ensino têm sido de uma utilidade extrema. Basta ver a qualidade argumentativa dos nossos deputados viajantes.

Mas então, afinal, vamos fazer algo para acabar com as guerras?

Vamos olhar com espírito crítico para a História e para o humano?

Ah! Pois. Ao contrário das primeiras, a história e as “humanidades” não dão dinheiro.

Então, como diria o outro, porque não se calam? Lamentam-se de quê?

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