(Já publicado em julho de 2017)
Está agora na moda o pedido de desculpas, assim como uma espécie de extensão do politicamente correcto. O pedido de desculpas é como a lixívia que lava o passado. E, deste modo,sem qualquer esforço, lava-se a responsabilidade e continua a agir-se como se nada houvesse acontecido. Pede-se desculpa pela guerra, pelo tráfico de escravos, pelo racismo, pelo sexismo, pela homofobia e continua-se, agora mais leves porque se pediu desculpa, a fazer a guerra, a traficar seres humanos, a segregar os que têm uma cor de pele diferente, a discriminar as mulheres, a produzir leis homofóbicas.
O pedido de desculpas limpa a culpa, apenas para se continuar a fazer, irresponsavelmente,o que há milénios a humanidade faz; matar, saquear, violar, escravizar.
A História não se limpa e ainda que tudo seja apagado, o passado permanece inalterado. Só o modo como se olha para ele é alterável. Para isso inventam-se palavras ou altera-se o seu significado. Ao pedido de desculpas foi concedido o poder de apagar o passado. Em nada altera o crime. Mas a culpa de quem o cometeu desaparece e o criminoso pode passear-se impunemente e continuar a receber os benefícios e, quem sabe, até a ser condecorado.
O ladrão que rouba milhões, não é ladrão. Somente usou indevidamente fundos que não eram seus. Quando muito, cometeu um ilícito. Nada tão grave como o que roubou um pacote de leite no supermercado. Esse sim, é um ladrão.
E a mentira? A mentira já não existe. Talvez uma imprecisão verbal, quando muito uma inverdade. Em caso de dúvida um pedido de desculpas resolve o problema.
É assim que a narrativa dominante vai mantendo, reproduzindo e afirmando o seu poder.
Basta olharmos os jornais que por cá se publicam. Além de genericamente mal escritos, encontramos diariamente escribas que escrevem umas crónicas reproduzindo a voz do dono e usam essa linguagem dominante com a qual pretende interpretar o mundo e fornecer uma visão da realidade que, obviamente,não corresponde senão à sua realidade.
O mundo é outra coisa. É uma outra coisa que a glorificação da irresponsabilidade (entre outras) ameaça destruir, escravizar.
Esta linguagem (ou narrativa) dá-nos uma leitura do mundo, dá-nos as perguntas e as respostas que não fizemos, não queremos nem precisamos. Essa é linguagem dos ladrões, dos assassinos, dos esclavagistas. É a linguagem das desculpas, a linguagem de quem é impunemente irresponsável.
É urgente recuperar o significado autêntico das palavras. O significado de verdade, de princípios, de valores, de virtude, de coerência, de lealdade moral, de honra, de respeito.
Esta narrativa destrói todo o sentido para o substituir pela irresponsabilidade.
É que as palavras não são apenas letras alinhavadas. As palavras estão no lugar de algo e perdendo o real significado também aquilo que significam desaparece.
A narrativa dominante ao dar, sem lhe ser pedido, a pergunta e a resposta, faz desaparecer uma parte da realidade. É assim como o apelidado de jornalista entrevista o político. As perguntas estão previamente escritas, tal como as respostas. Se por acaso o jornalista resolve ser mesmo jornalista, é sabido que na próxima emissão já lá não estará.
Assim a responsabilidade é substituída,sem protesto, pela irresponsabilidade.
Assim se glorifica a impunidade irresponsável.
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