Texto já de Maio de 2012 mas perfeitamente actual.
O que é o “terrorismo de colarinho branco”? Não sei se já alguém usou esta expressão para aquilo que adiante tentarei explicitar, mas parece-me uma boa classificação.
Comecemos por apresentar uma definição de terrorismo. A Wikipédia apesar de algumas falhas e imprecisões, dá-nos jeito quando precisamos assim de uma definição rápida e os dicionários clássicos nos dizem muito pouco. Segundo esta enciclopédia, “terrorismo é o uso de violência, física ou psicológica, através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, terror, e assim obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas, incluindo, antes, o resto da população do território. É utilizado por uma grande gama de instituições como forma de alcançar seus objectivos, como organizações políticas de esquerda e direita, grupos separatistas e até por governos no poder”.
Chamo a vossa particular atenção para o que está sublinhado. De referir que os sublinhados são meus.
Em relação ao terrorismo eu simplifico: terrorismo é tudo o que se impõe pelo terror, seja físico, seja psicológico. O que destrói usando meios para os quais não há grande defesa. O que ataca inocentes. O que condiciona a vida de seres humanos ao ponto dessa vida ser destruída. O que escraviza e explora seres humanos.
Podemos dizer que há diferentes formas de terrorismo. Há o terrorismo “clássico” que se fundamenta em verdades absolutas, sejam ideológicas ou religiosas (no fundo também ideológicas). Este terrorismo inclui o dos que não têm ou não vêm outra alternativa contra algo ou alguém que é ou representa um opressor demasiado poderoso. Generalizando, poderemos dizer que os primeiros terroristas eram quase heróis, ou que pelo menos assim se viam a si próprios. Do outro lado, do lado dos que eram alvo desse terrorismo, tudo era publicitado como um terror aleatório que visava destruir pessoas e bens e, mais grave, o próprio estado. Quando os diversos movimentos de libertação africanos começaram as suas insurreições, logo foram apelidados de terroristas ou mais popularmente de turras. Ninguém se quis lembrar de quem vivia naquelas terras de África ou Índia, daquilo que foi o abjecto comércio de vidas, do assassínio massivo, de famílias mortas ou separadas para sempre, de escravos usados para trabalho e reprodução. Mas sim, estes eram os terroristas que se rebelavam contra a propriedade, contra os seus proprietários. Não valerá sequer a pena falar de todo o suporte ideológico e religioso que justificava o negócio e condenava a revolta.
Mas hoje temos novas e sofisticadas formas de terrorismo. Se aquele que se fundamenta em verdades absolutas é terrível pela violência física e espectacular (faz parte da sua própria propaganda) que normalmente vitima inocentes, há, a meu ver, um terrorismo muito mais devastador e completamente cego porque os seus alvos não são determinados por um objectivo humano e os seus executantes, aparentemente, nem sabem da violência que praticam. Este é o terrorismo de colarinho branco.
Quem são os que usando um colarinho branco, uma gravatinha, um fatinho, provocam o terror? Podemos começar pelos mais visíveis: os amanuenses, também conhecidos como executivos do capital financeiro e especulativo, os que usam os grandes fundos de investimento, aqueles que pensam dominar os mercados através da agiotagem, por vezes suicida.
Estes fundos não têm propriamente um cérebro, uma estratégia definida. A sua lógica é a do próprio sistema que, entrando em roda livre, é simplesmente incontrolável. É como o computador “Hal” do “2001-Odisseia no espaço”, que, como sabem, mais que um filme de ficção, é um filme de terror.
Voltando a esta lógica que escapa ao controlo dos amanuenses e dos donos do capital, pequenos ou grandes, poderemos dizer que é uma lógica inerente ao próprio sistema sem a qual este perde o seu objectivo: o lucro, mais lucro e ainda mais lucro, quanto mais rápido melhor. As pessoas, os países, são perfeitamente sacrificáveis. As pessoas não são capital, não representam lucro, são substituíveis, são meros instrumentos, mera mercadoria. Neste jogo, a lógica do capital especulativo não precisa de pessoas. Apenas de consumidores. Não há limite para as apostas, para a especulação. Mas não há qualquer problema. A massa não é sequer deles. Tudo é apenas um jogo, onde eles próprios podem num dia parecer ser os donos do mundo e no seguinte andar a vaguear por uma ponte em busca do suicídio. É como no conto de Jorge Luís Borges, “A lotaria na Babilónia”.
A este jogo costuma chamar-se “o mercado” ou “os mercados”. Na aparência a mercadoria é o capital. Na realidade, a mercadoria são países, são pessoas. O método é a agiotagem. Não aquela agiotagem clássica de quem empresta a um juro suficiente para ganhar algo mas que deixa a quem contrai o empréstimo a possibilidade de, com uma boa gestão, realizar o suficiente para pagar o empréstimo e ainda os juros. Claro que se não houvesse uma boa gestão ficaria nas mãos do agiota. O agiota clássico emprestava mas só depois de uma avaliação dos riscos. Se duvidasse, guardava o seu dinheirinho. De resto, há uns largos anos, era assim que a maioria dos bancos funcionava entre nós. Por exemplo, quando se pretendia comprar uma casa, a prestação da mesma não poderia ultrapassar um terço do rendimento familiar. Além dessas cautelas, havia entre as instituições uma troca de informações que lhes permitia saber a efectiva capacidade de endividamento de quem pedia emprestado. Esta prática foi abandonada e passou-se para a especulação pura. A concorrência entre bancos levou a que se concedessem empréstimos a quem já se sabia que não ia poder pagar. Que se concedessem empréstimos para pagar outros empréstimos. Tudo se transformou num imenso logro, numa imensa exibição de falsa riqueza, de falso bemestar. Mais tarde ou mais cedo haveria que começar a pagar. Quando os empréstimos já não chegavam para pagar os anteriores empréstimos, nem os juros, nem os empréstimos dos empréstimos dos empréstimos, como um castelo de cartas, tudo começa a cair. Cai o que pediu emprestado, cai o que emprestou porque não tem como recuperar a totalidade do que emprestou. Há cerca de dez anos já havia mais 100.000 habitações do que famílias em Portugal. Quanto mais se construiu depois? Quantas empresas de construção civil já fecharam? Quantas dívidas os bancos não recuperaram?
1ª Pergunta relacionada com o terrorismo: de quem é o dinheiro que foi emprestado e não recuperado? Dos bancos não é.
2ª Pergunta: quantas vezes o seu banco não lhe ofereceu um empréstimo que não pediu?
3ª Pergunta: Alguma vez se perguntou porque é que nos depósitos a prazo, ou aplicações como se tornou moda chamar, os juros tinham variações tão grandes? Deixo-vos com as interrogações e vou à procura de mais uns turras. Se estiverem com atenção, sempre que um país está em dificuldade e se anuncia a sua ida aos mercados, ou a possibilidade de isso acontecer, na semana anterior as maiores sumidade económicas e outras luminárias intelectuais debitam o mais variado leque de opiniões sobre o assunto, desde o dizer que aquele país está falido e deve ser empurrado para fora do euro, até aos que dizem que não senhor, que aquele país apresenta sinais de recuperação. Mas a propaganda já está feita e assim o empréstimo a ser concedido já sofreu mais um agravamento nos juros. É assim como a publicidade gratuita ao Pingo Doce. Todos os jornais, televisões, facebook, blogues, etc. divulgam amplamente o supermercado em causa. É o mesmo que muito indignou os paladinos da moral e justiça que logo propuseram boicotes ao dito. Como se viu…
Voltando aos turras, não precisam de fazer literalmente nada para ganhar uns larguíssimos milhões de um momento para o outro. Estes turras incluem, obviamente, as agências de rating que oportuna e regularmente debitam as suas sentenças sobre a saúde económica dos vários países onde têm interesses. São os mesmos que no dia em que o Lhemans Brothers faliu o apresentavam como o melhor e mais seguro investimento. Claro que, como se pode ver no filme Inside Jobs, ao que parece, nenhum dos que tinham interesses directos nessas agências perdeu alguma coisa com a falência do referido banco, nem os accionistas principais deste deixaram de acautelar e aumentar as suas fortunas pessoais antes de anunciarem a falência. Mas, não tendo ninguém sido condenado (que eu saiba, mas posso estar enganado), está tudo dentro da legalidade. O director de uma dessas agências até recebeu um prémio de dez milhões de dólares pelo bom trabalho, mostrando assim, claramente, a conivência destas agências com o capital especulativo, fazendo obviamente parte do esquema. Já a mesma sorte não teve um outro que aqui há uns meses se atreveu a baixar o rating dos EUA. Dois ou três dias depois estava despedido.
Procuremos mais alguns promotores do terror: Parlamentos e governos. Qual é o exemplo que temos? Que é feito da Segurança Social? Que é feito das leis que protegem o trabalhador? Que é feito dos subsídios de férias e 13º mês? Com tanto desemprego, para que é preciso aumentar os horários de trabalho? Quando o que hoje é dito, amanhã é alterado, como dar a esta atitude outro nome senão chantagem, terror psicológico, falta de moral? Sobretudo se compararmos com luxos e despesismos de governantes, deputados, presidências da república e outros? Quando num dia se diz uma coisa e no seguinte se faz o contrário, que confiança se pode ter em quem assim age? Não é tal atitude compatível com terrorismo, pelo menos pela violência, que já não é só psicológica, sobre as pessoas?
Quando há anos o parlamento vem fingindo elaborar uma lei que impeça o enriquecimento ilegal e, apesar da quantidade de advogados que por lá andam, não é capaz de fazer uma lei em conformidade com a constituição, chamamos a isso incompetência ou conivência? E seja uma ou outra, não será uma forma de terror? E quando, depois de todos os discursos sobre contenção de despesas, quando os partidos da oposição acusam o governo de despesismo, como justificar que alegremente todos, incluindo os da oposição, aprovem novos valores para as subvenções do Estado aos partidos? Não será esta aprovação a prova provada de nenhum partido merecer qualquer confiança e a demonstração de que existem apenas para seu proveito e dos seus clientes? Ou não há sequer clientes? Não é esta promiscuidade uma forma de terror? Não é dizer-nos que estamos à mercê de quem anda a lamber os tachos do poder? Mas, pior que isso, será que têm mesmo algum poder que não seja sobre a arraia-miúda? Ou serão apenas mais um instrumento de outro poder mais acima? Será que quem manda, apenas pensa que manda? Faz este governo o que é importante para Portugal ou faz o que outros governos estrangeiros lhes mandam fazer? E será que estes governos estrangeiros mandam mesmo alguma coisa, ou fazem apenas parte de uma trupe de actores actuando numa gigantesca encenação? Mandam, ou são mandados por algum encenador que nem aparece no palco?
Se mandam, por que não tomam medidas políticas que protejam as pessoas e se submetem à lógica dos mercados de capitais especulativos? Não os podem controlar? Por que não? Será que é por serem incompetentes? Será que é porque lucram com esses capitais?
Se é pelo lucro, será essa a razão da dificuldade de uma lei sobre o enriquecimento ilícito? Será que é porque nada podem fazer contra a especulação, porque não controlam a proveniência dos capitais? Quem coloca o seu dinheirinho em offshores? Quem precisa de “lavar” o seu dinheiro?
Outra pergunta: Onde será que quem foge aos impostos deposita o dinheiro? Onde o colocam os traficantes, seja de droga, de armas ou de seres humanos? E, já agora, os traficantes de influências?
Quando num mesmo dia se lêem nos jornais títulos que anunciam que os vários processos em que o arguido é um político da nossa praça, que há anos se arrastam pelos tribunais prescreveram e que num caso ocorrido há menos de um mês os intervenientes (que não eram políticos nem banqueiros) já foram julgados e condenados, é claro que a justiça é apenas uma caricatura e apenas quem não tem dinheiro para advogados é condenado. Estas condenações nem sequer podem ser consideradas como propaganda à justiça, porque aquilo que ressalta é a injustiça. E não será esta ausência de justiça uma outra forma de terror? Será então o próprio estado, ou melhor, as instituições do estado, um instrumento para exercer o terror sobre os seus próprios membros?
Admitamos provisoriamente que tudo o que atrás disse se refere a diferentes (na aparência) formas de terror. Poderemos também admitir que, se assim for, há uma certa forma de terrorismo de estado, que começa a sentir-se demasiado no nosso país.
Porém, há, a meu ver, uma outra forma de terrorismo muito mais grave, uma forma de terrorismo inconsciente de si mesmo e que reside no nosso interior.
Uma forma de auto-terrorismo que nos faz negar a responsabilidade e apontar sempre o dedo aos outros?
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