segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A caça aos velhos

 


Publicado 7th November 2013

Como ressuscitaram no face umas tretas descontextualizadas sobre os velhos, resolvi também ressuscitar este texto. 

É sabido que os comunistas deixaram de comer criancinhas ao pequeno-almoço. Provavelmente porque provocava indigestões. Talvez também porque com a baixa taxa de natalidade as criancinhas começaram a escassear.

Agora temos uma variante, não de todo inesperada, com a diferença que esta se está a passar à frente dos nossos olhos: Alguém anda a matar os velhos.

Há para aí uns 15 ou 20 anos esteve na moda a discussão sobre eutanásia ou cuidados paliativos. Objectivamente, sob a capa de um princípio humanitário, procuravam-se justificações para resolver o problema dos velhos, ou seja, como despachá-los com o acordo da sociedade no seu geral.
A opção pela eutanásia foi-se desvanecendo na medida em que os cuidados paliativos eram menos chocantes, mais consentâneos com os hábitos sociais e também, é importante não esquecer, porque eram um negócio lucrativo.

Estou a ser cínico? Talvez. Mas ainda não vi neste ou em qualquer país uma acção humanitária vencer apenas pelo seu valor humanitário. Ou há negócio, ou não há acção. Vejam por exemplo para onde vão alguns políticos quando parece que estão para passar à reforma: ONUs, ONGs, etc. e com ordenados consentâneos.
Voltando à eutanásia/cuidados paliativos, enquanto o negócio fosse rentável, poderíamos estar descansados na nossa boa moral, porque alguém havia de tratar dos velhos.
Porém, com a crise (é conveniente arranjar sempre um bom argumento, que é como quem diz, uma boa desculpa) a “peste grisalha” torna-se um problema que os meninos de cueiros querem resolver. Já não são só os doentes em estado terminal, os idosos doentes e provavelmente em situação irreversível que estão ameaçados.

Os cortes nas pensões de velhice, no serviço nacional de saúde, nos medicamentos, são claro indício desta caça aos velhos.

E há aqui duas questões que convém clarificar. Primeiro, o dinheiro das pensões foi descontado por que trabalhou exclusivamente para um fim: o de ter um fundo que lhe permitisse uma vida minimamente tranquila após anos e anos de trabalho. Esse dinheiro não faz parte dos impostos para o estado. É objectivamente uma poupança para a velhice e é de quem o descontou. Convém ainda acrescentar que esse valor é, arredondado, superior a 33% do ordenado de qualquer trabalhador. Portanto, quando um badameco qualquer vier para aí mandar postas de pescada sobre se o dinheiro das pensões é ou não dos reformados, a resposta é que sim, é dos reformados e apenas deles e não para os badamecos roubarem para os seus interesse, para pagar autoestradas ou para cafezinhos e almoços à borla.
Segundo: Os velhos são sempre os mais desprotegidos, sobretudo quando perdem a sua autonomia. Muito mais difíceis de tratar que as crianças, muito mais dependentes que elas. O seu armazenamento em lares fica caro, mesmo em lares de má qualidade. Muitas vezes a reforma não é suficiente para pagar a “estadia” enquanto se espera. É assim abjecto que as políticas de qualquer governo os venham a atingir da forma que já o estão a fazer. Objectivamente é uma disfarçada caça ao velho, para que morra cedo e dê pouca despesa, seja em medicamentos, seja em cuidados.

A esperteza saloia dos meninos de cueiros e as tretas sobre o estado providência, etc, são apenas isso, tretas. Se ao longo da vida se pagou para reformas, serviços de saúde, etc., não há estado providência nenhum. Quando muito, há um estado e governo que deveriam administrar honestamente os dinheiros que lhes foram entregues e, com a sua suposta competência para administrar um país, deveriam fazê-lo e não usarem fundos que não lhes pertencem para pagar auto-estradas, investir em fundos de risco ou comprar dívida pública.

Utilizar indevidamente o dinheiro que foi colocado à sua guarda é fraude, é roubo.

As consequências objectivas são a caça aos velhos da forma mais vil, ao colocarem-nos à morte por falta de dinheiro para comerem, falta de dinheiro para comprarem medicamentos, falta de dinheiro para pagarem o próprio funeral.

E não me venham com tretas de que a austeridade é imprescindível ou não sairemos da cepa torta e afundar-nos-emos ainda mais.

É verdade que a austeridade é necessária, mas só se justifica quando há resultados e quando não implicam a dor, o sofrimento, a morte de quem já não é autónomo para lutar por si.
Chegámos onde chegámos pela má gestão, pelo mau uso dos fundos/poupança dos pensionistas, pelo desbaratar do dinheiro dos impostos.

O exemplo vem sempre de cima. O estado, ou seja, o governo, deu sempre o exemplo do desbaratar a torto e a direito, sem qualquer controlo. Não tem agora que invocar que gastámos acima das nossas possibilidades. Os governos é que há mais de trinta anos governam acima das suas possibilidades, ou seja, desgovernam aquilo para que não têm, nunca tiveram competência.

As grandes vítimas por incapacidade de se defenderem são os velhos.

Podemos afirmar que agora não são os comunistas que comem criancinhas ao pequeno-almoço. Agora são os que nos últimos 30 anos estiveram no governo e o seu séquito que comem velhos a qualquer hora. Com uma grande diferença: nunca se deu conta do desaparecimento de qualquer criancinha, mas já se podem contabilizar os velhos vitimas deste despertar de aves necrófagas.

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