A história da Utolândia
Como prometido quero hoje falar-vos um pouco sobre a história da Utolândia. No entanto, têm ocorrido factos estranhos sobre essa história. Factos são factos e poderíamos acreditar que todos os vêem como são ou foram acontecendo. Talvez por influência da filosofia de síntese, cada utolandês relata uma história diferente.
Deixem-me primeiro abordar, ainda que de forma medíocre o que é esta filosofia de síntese.
Há muitos séculos começaram a chegar à jangada notícias de filósofos que pretendiam encontrar a Verdade. Não era uma verdade qualquer, era a Verdade, a única, a absoluta, a que não oferecia quaisquer dúvidas. Na Utolândia, algumas almas mais propensas ao misticismo, aderiram a estas ideias e cada alma não tardou a apresentar a sua verdade. Houve até uma época em que as verdades verdadeiras se guerreavam entre si e os seus seguidores se matavam aos milhares. Depois, outros filósofos menos dados aos misticismos e mais virados para a lógica, encontraram na existência de várias verdades a negação da Verdade. Uma outra linha filosófica negou logo que a verdade existisse, porque a única verdade era "que o homem é a medida de todas as coisas". Ainda assim, alguns grandes filósofos insistiam que tinha de existir uma Verdade que permanecesse para além de tudo o que nascia, se transformava e morria. Uma Verdade para sempre igual a si mesma, imune a qualquer mudança. Uns encontravam-na nas Formas, outros nas Ideias.
Não se sabe bem como, mas ao longo dos séculos foram surgindo vários livros que procuravam conciliar todas estas teorias. Pouco a pouco, sem que alguém desse conta de onde ou quando, surgiu a filosofia de síntese Também ninguém sabe dizer quem lhe deu o nome.
Porém, também a filosofia de síntese é diferente em cada livro que, não se sabe porquê, é sempre anónimo.
As habituais línguas viperinas dizem que os autores e editores pertencem à Corporação dos Jogadores de Monopólio.
Pois é, ainda não vos falei da corporação dos Jogadores de Monopólio. Mas terá que ficar para mais tarde.
Agora voltemos à filosofia de síntese. Como está bom de ver, a proliferação de sínteses veio dar um golpe definitivo na filosofia e nos que tentavam e apelavam à reflexão, que imediatamente caíram no descrédito e passaram a ser tratados como bobos da corte, excepto quando atingem uma idade considerável. Nestes casos, de vez em quando, para se fazer de conta que alguma importância se dá à sabedoria, ao pensamento reflexivo, entrevista-se um destes idosos. Focam-se bem os indícios de velhice, as rugas, os cabelos brancos e conduz-se a entrevista de modo a mostrar que o velhote está gagá. Na verdade, se é que esta é para aqui chamada, o que acontece é que a lucidez do velhote é demasiado sábia e talvez complexa para que os pobres de espírito dos entrevistadores e leitores ou espectadores compreendam. Por isso, o reino é deles.
Curiosamente alguns filhos da filosofia continuam a ser muito usados para justificar qualquer posição. Um dos exemplos é a Ética.
As primeiras reflexões sobre a Ética falavam de Princípios que regulavam o comportamento e as relações humanas. Estes Princípios não davam muito jeito porque eram pouco flexíveis e rapidamente foram substituídos pelos valores. Um valor, como se sabe, é aquilo que vale num determinado momento e dentro de um certo sistema de referências.
Um valor é um conceito sobretudo economicista. Talvez por isso, os viperinos dizem que também esta ética foi inventada pelos jogadores de monopólio. Dizem ainda que nos arquivos, enormes, da corporação, existem milhares de livros, com milhares de éticas, que justificam tudo. Seja pois qual for a circunstância, tudo está justificado pela ética. Dizem ainda os viperinos que na sala ao lado está o arquivo das leis, que também tudo justifica numa perspectiva de legalidade. Numa outra sala jazem os livros de História, cada um relatando uma história diferente para a Utolândia. Já estão a ver o por quê da minha dificuldade em contar a história.
Dizia um historiador do continente que alguém que ignora a história, que ignora o seu próprio passado, estará sempre a repetir os mesmos erros.
A acreditar nos viperinos, a Corporação dos Jogadores de Monopólio conhece profundamente o passado, a História. Mas não é do seu interesse que essa história, a dos factos como aconteceram, seja do domínio público. Nas entrelinhas alguém poderia descobrir as suas manipulações. Alguém poderia aprender com os erros do passado. Por isso a Corporação todos os anos contrata estagiários e aprendizes para escreverem novos livros de estória, que são depois distribuídos pelas escolas do território.
Para que os professores mais velhos, os únicos ainda com memória, não dêem conta destas falsificações, inventaram relatório atrás de relatório, ficha atrás de ficha, reunião atrás de reunião, impedindo-os assim de exercer o que supostamente seria o seu objectivo: ensinar. E quando nos intervalos de relatórios, fichas, reuniões conseguem o tempo para ensinar, o cansaço e desânimo são tão grandes que até se convencem que os seus conhecimentos estão errados e o livro que têm em frente está correcto e completo.
Com os professores mais novos não há este último problema. Os livros em que aprenderam eram mais parecidos com os actuais. E nem sequer é preciso lê-los. Digitaliza-se a página, faz-se um Power Point, passa-se para o quadro interactivo e já está.
Com tudo isto distraí-me e ainda não lhes falei da História da Utolândia. Mas já viram que vai ser difícil. E hoje já estou cansado. Amanhã, talvez, começarei a contar algumas coisitas da história.
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