quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Utolândia (4)

 

Estórias da Utolândia – da estupidez diplomada e da irresponsabilidade criminosa

Como é sabido, há décadas que as políticas governamentais e a narrativa dominante na Utolândia têm conduzido não só a uma incompetência generalizada mas também a uma ignorância crescente e a uma estupidez contagiosa.

Nos dias que vão correndo, duas pestes concorrem, na Utolândia, pelo primeiro lugar: a peste da estupidez e uma nova, de origem vírica, que surgiu há pouco. Nem uma nem outra têm ainda cura. Apesar da tão falada imunidade de grupo, a primeira continua a afectar a generalidade dos utolandeses e para a nova talvez haja a possibilidade de uma vacina ou medicamento. Para a primeira já não há esperança.

Em boa verdade o problema não é exclusivo da Utolândia mas do planeta na sua generalidade. Um dos meus exemplos favoritos é o de uma senadora sul americana que propôs a realização de um referendo para decidir se a terra é redonda ou não.

Como também se sabe, na Utolândia, todos ou quase são especialistas em futebol. Surgiram agora duas novas modalidades em que quase todos os utolandeses se tornaram especialistas: direito e epidemiologia. Alguns até são especialistas nas duas. Um exemplo: no fim de semana um grupo destes especialistas promoveu uma manifestação anti-máscaras. Fundamento? O direito de não usar aquele acessório que ainda por cima é inútil. Como se vê, especialistas que ao mesmo tempo que afirmam o seu direito a infectar os outros, explicam cientificamente a ineficácia das máscaras com a evidência do embaciamento das lentes de quem, simultaneamente, usa os dois acessórios (máscara e óculos). Se as lentes embaciam é porque o vapor provocado pela respiração não fica contido na máscara e daí a inutilidade da mesma. Como este especialista parece saber, não há qualquer diferença entre estas gotículas e a projecção à distância que acontece quando se espirra, tosse ou fala.

Também um outro especialista, este, devidamente diplomado na área, afirma que as máscaras são inúteis e o importante são as mãos. Portanto, parece que a lavagem das mãos substitui a máscara.

Depois temos uns escrevinhadores diplomados, sobretudo em estupidez, mas simultaneamente em tudo o resto, como política, ciência, estatística, epidemiologia, gestão hospitalar e sei lá que mais. Parece que a máscara, além de inútil, aumenta o medo. E depois, a nova peste só mata os velhos. Além do mais, o vírus nem se espalha pelo ar e os especialistas que afirmam o contrário são parvos. Portanto, há que, irresponsavelmente, contribuir para a manutenção das duas pestes. Até porque, como se sabe, o medo entope os hospitais e esgota a capacidade de internamento. Já a peste vírica em nada afecta.

Claro está que a nenhum destes especialistas ocorre que a necessidade de implementar leis que obriguem e penalizem, só acontece pela irresponsabilidade generalizada. Também, a quem governa, não ocorre que as contradições, ausência de critérios médicos e hospitalares uniformes, falhanço de questões de logística elementar ou a péssima informação contribuem para a sua descredibilização.

Dominados pela peste da estupidez, os utolandeses deliram com estes espectáculos, escritos e televisivos, ainda mais que com os segredos e irmãos.

Entretanto já há hospitais sem espaço físico para internamentos. E não falo de camas, que estão esgotadas. Já não há sequer macas ou lugar onde colocar doentes. E nem digo das urgências ou do pessoal de saúde infectado.

Na Utolândia, a irresponsabilidade criminosa é mesmo um espectáculo!

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