segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Democracia e o acesso à corrupção

 


(texto publicado em Julho de 2014)

(Nota: este texto põe em causa os fundamentos da fé de muita gente pelo que já estão avisados para não haver surpresas)

Os crentes costumam dizer que a fé é que nos (a eles) salva. Eu direi que a fé é o que
nos condena.
Sim, já sei, mais uma vez estou a “meter-me” com os crentes e não mostro por eles
qualquer respeito. Isso é um pouco exagerado porque ao contrário dos supersticiosos, eu procuro fundamentar o que digo com argumentos verificáveis. É escusada a menção à fé? Não, não é, porque é ela que nos condena a ficarmos fechados em nós mesmos, servos de mitologias que nós próprios criámos e que vergonhosamente servimos. É a fé que nos condena à servidão eterna (nesta terra, porque não existe uma única prova de qualquer outra vida). É a fé que nos torna escravos e só quando alguém se atreve a combater essa escravidão é que o escravo se revolta. Não quer de modo algum perder o seu estatuto de escravo onde tudo está devidamente explicado,onde não há dúvidas sobre o caminho a seguir, onde o bem e o mal estão claramente separados.
O mal, obviamente, são sempre os outros. São os outros que roubam as pensões, os
salários, os empregos. Os outros que quando maldizemos o Big Brother ou a casa dos
segredos não vêm a casa desligar a TV e nos deixam ver essas coisas. São os outros que
obrigam os escravos a assistir ao futebol, com mais de 50% de audiências. A culpa
também é de jornais e televisão que não falam noutra coisa e até obrigam a comprá-los e a pagar a sport tv.
E depois? Já não se pode ser escravo? Não é para isso que existe a democracia? Não é
para defender o direito de ser escravo?

A liberdade tem um peso insuportável. A
responsabilidade é uma coisa terrível, diria mesmo um mal. É tão bom podermos
apontar o dedo e dizer: aquele é que é um sacana, um filho daquela senhora que afinal
trabalha mais que os filhos, um corrupto. Apontar o dedo é um direito democrático.

Ser escravo é um direito democrático.
Portanto, agora que já vimos quem são os bons, espreitemos os maus.
Aquilo que a democracia tem de bom (depende obviamente da perspectiva) é o
acesso à corrupção. A democracia foi desde a sua invenção na Grécia do século V (ac)
salvaguardada com um sistema de rotatividade no poder e com várias instituições que se controlavam umas às outras, impedindo (supostamente) que um grupo aí permanecesse demasiado tempo. Ou seja, na prática, a democracia foi inventada para gerir o poder quando dois grupos demasiado fortes e inteligentes chegaram à conclusão de que em vez de se matarem uns aos outros era mais rentável e tranquilo partilharem a pilhagem. Inventaram então uns quantos direitos e deveres e construíram uma ideologia que falava de direitos e deveres e dessas coisas que toda a gente, bons e maus, gosta de falar, sobretudo para fingir que se importa. Os bons para se fingirem solidários (moralmente, claro está) e os maus para fazerem de conta que se importam, embora todos (bons e maus) saibam que é só publicidade enganosa.
Dizia eu que a grande vantagem da democracia relativamente à ditadura, é um maior acesso à corrupção. Numa ditadura só os do regime beneficiam (pelo menos com a
grande corrupção). Numa democracia todos (ou quase) têm acesso a essa corrupção,
bastando para isso inscrever-se num partido, de preferência ainda jotinha, assistir a
uma reuniões, participar nos jogos de bisca lambida e pronto, já está apto a ser
assessor ou até ministro ou quem sabe, presidente. Depois vão fazendo umas rotações de lugares sendo que, quando no poder, têm o cuidado de não mexer muito nos tachos dos concorrentes porque mais tarde ver-se-ão na mesma posição.
Isto é o que verdadeiramente é a democracia. O resto, como já disse, é publicidade enganosa.
Claro que os bonzinhos que esperam, esperam, esperam, acham que é o poder do povo. Só têm razão na parte do poder. O resto, como qualquer deles saberia, se o quisesse, se usasse a sua liberdade e responsabilidade, é apenas treta.
A democracia é inventada para servir menos de 10% da população de Atenas (isto são
contas por alto). Senão vejamos: as mulheres não tinham direito a voto ou participação (lá se vai 50% do “povo”). Os escravos também não, nem os estrangeiros.
Deve acrescentar-se que o trabalho era muito mal visto entre a aristocracia ateniense.
Em conclusão, a democracia, ou seja a partilha do poder e consequente saque, estava reservada a uma escassa minoria que nada produzia mas tudo possuía.
E o que é que 25 séculos de história nos ensinaram? Nada, rigorosamente nada.
Porquê? Porque a salvação é dos mansos, o reino é dos mansos, só os servos se salvam. Não foi o que o anterior cardeal apelou nas suas últimas intervenções públicas? Ao servilismo? À não revolta? Não é essa a atitude geral de todas as igrejas, seja qual for o credo que dizem defender? Não são todas, sem excepção, apenas um braço servil ao serviço do poder e que com ele se confunde?
De vez em quando o conteúdo do tacho começa a escassear. Então o grupo no poder trata de afastar previamente alguns concorrentes o que até contribui para uma melhor publicidade, como se pode ver por estes exemplos: Ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy detido para interrogatório (http://www.publico.pt/mundo/noticia/expresidente-sarkozy-detido-para-
interrogatorio-1661164) ou Ex-ministro grego condenado a 20 anos de prisão por branqueamento de capitais (http://www.publico.pt/mundo/noticia/exministro-grego-
condenado-por-branqueamento-de-capitais-1608303).
Boa publicidade, mas muito, muito enganosa. Como está bom de ver, a incompetência
e descaramento também têm limites e de vez em quando é preciso mudar algo para que tudo permaneça igual. É nestas ocasiões que a fé dos servos se sente recompensada. Sempre serviu de alguma coisa esperar. Mas o que é que de verdadeiramente melhorou na sua situação? De facto apenas a sua fé foi reforçada, o que na sua perspectiva é positivo mas na minha é negativo, uma vez que apenas a sua situação de servo foi confirmada.
Mas alegrem-se. Nem tudo está perdido. O futebol está quase a recomeçar. Nas primeiras páginas já há nomes de grandes contratações de quem ninguém ouviu falar.
Certamente deve estar para aí a aparecer outro grande programa televisivo para entretenimento das consciências

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