Velha, mesmo muito velha é a expressão “dividir para reinar”.

Velhinha como é, está na vanguarda dos tempos modernos. Bastará recorrer a dois exemplos recentes, a Catalunha e o Brexit, para o comprovar. Após um breve momento em que a Europa pareceu encontrar um objectivo comum, onde estavam presentes também intenções humanistas, rapidamente deu para perceber que, embora algumas almas bem intencionadas o quisessem, a parte respeitante ao humano só era importante enquanto desse cobertura à ascensão da rapina financeira. Este impulso inicial levou a Europa a colocar-se (pelo menos na aparência) como referência para o mundo e até o euro a impor-se face ao dólar.

No entanto era fácil ver que um mercado (financeiro) de predadores e necrófagos, com todo o peso de traficantes de armas, de drogas, de humanos e outros, não se dá bem com controlos que não sejam os do bando predador. Esta UE, se por um lado procurava criar regras para implementar uma melhoria de qualidade de vida, possibilitou, ao mesmo tempo, a sua própria destruição que é hoje uma evidência.

Parafraseando Hegel, tudo traz em si a sua própria destruição (superação). A produção de decretos sobre direitos sem, como habitualmente, falar dessa coisa chata que são os deveres, conduziu à ilusão generalizada de que os direitos de facto existem e eventualmente são até obra e graça caídos do céu aos trambolhões.

Na verdade, ou, como esta é uma palavra extinta tal como o que representa, em concreto, os direitos são apenas algo escrito mas sem consistência real. Portanto, objectivamente, não existem.

Dois exemplos diferentes que o comprovam. Lembram-se do wikileaks? Dos panamapapers? Que aconteceu? Nada. Absolutamente nada. De vez em quando vomitam-se uns decretos a produzir mais uns direitos e confirma-se que tudo continua rigorosamente na mesma. O que aconteceu ao BPN, BES, etc? Na prática, nada. Absolutamente nada, até porque que tudo foi suportado pelos impostos e sabemos quem os paga.

Um exemplo diferente que logo na sua forma dá aos opositores os argumentos para o combater. A igualdade de géneros. Mas desde quando é que os géneros são iguais? Não é por isso mesmo que são género? Por serem diferentes? Não é por isso que há atletismo masculino e feminino? Que há wc para homens e outros para mulheres?

Ahh! O que querem dizer é que deve haver uma igualdade de direitos entre homens e mulheres. Pois, mas isso é algo que só a sociedade pode conceder. E escrever e publicar decretos é apenas um acto objectivamente oco, porque toda a educação e ensino, toda a prática dos modelares políticos, tudo o que é visto e lido em meios de informação (e por favor não lhe chamem comunicação, que é outra coisa) faz a apologia e glorificação do MEU direito, ao mesmo tempo que ignora qualquer dever.

Se o ensino se dedicasse a ensinar a pensar, a reflectir e consequente a adquirir um espírito crítico, então, qualquer adolescente constataria que sem um comportamento coerente os direitos não existem. Dito de outra forma; sou eu, quando ajo cumprindo o meu dever de respeitar que garanto o meu próprio direito.

No entanto, o ensino, a política, a divulgação de informação, continuam a ser dominados por adultos moralmente com a idade mental de adolescentes. Às vezes até falam de deveres. Dos deveres que os outros têm em respeitar o seu (deles) direito.

Mas comecei por falar de “dividir para reinar”. E porquê? Porque desde que a história se conhece esse foi sempre o lema dos predadores conquistadores.

Vejamos assim de forma ligeira. Quem lucra com a divisão da Europa? E falo só financeiramente. Obviamente três países aparecem à cabeça: USA, China e Rússia. Esta última é mais por uma questão de capricho czarista, porque comercialmente já não tem peso. Mas a recuperação dos USA e a ascensão da China são muito facilitados com as divisões na Europa. Uma das formas de o fazer é aproveitar a mediocridade intelectual e moral dos políticos e incentivar nacionalismos e outras tretas. Como na Catalunha, a mediocridade de um lado e de outro rapidamente descambou num radicalismo que em nada aproveita aos próprios. Só para passar rapidamente para outro lado, diga-se que não há um movimento independentista na Catalunha, mas vários, que vão da extrema esquerda à extrema direita.

Outro exemplo da divisão e perda de influência própria é o Brexit. Segundo a generalidade dos analistas economistas, os prejuízos financeiros e económicos nos próximos anos serão elevadíssimos. Isto sem falar nos problemas sociais.

Mas o exemplo mais óbvio de como se destroem direitos com a ilusão de os criar por decreto, está mais próximo, aqui mesmo no país, embora já com várias décadas.

Claro que eventualmente só os velhotes se lembram desse tempo, quando Mário Soares e Gonelha decidiram partir a espinha à intersindical. Ou seja, puseram em decreto a legalidade de “fabricar” vários sindicatos dentro de um mesmo sector. Não era o salvaguardar o direito de tendência mas foi mesmo o de criar outros sindicatos. Assim o PC perderia parte substancial da sua influência e o PS passaria a ter os seus próprios sindicatos.

Dentro de cada sindicato, onde antes havia a dinâmica da discussão e a presença em assembleias, passou a haver unanimidade e ausência de discussão e também, progressivamente, as assembleias esvaziaram-se de gente.

Chegamos assim ao ridículo de ter 14 sindicatos na polícia (lido há dias num jornal diário).

Com tal número de sindicatos, qual será a unidade existente entre os vários trabalhadores?

Aquilo que foi conseguido em lutas contra o patronato e a polícia nas ruas, antes do 25 Abril, foi destruído após o 25 Abril, pelos supostos defensores da democracia.

Talvez seja tempo de começar a questionar a narrativa dominante e analisar os seus fundamentos.