segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A infantilização da humanidade, a abolição dos princípios, a apologia da irresponsabilidade

 

O caso da final de ténis dos USA e da birrinha infantil de quem, não tendo a capacidade de ganhar procura desculpas nos outros, é paradigmático da infantilização e irresponsabilidade geral da humanidade. Bastará ler jornais e sobretudo os comentários sobre o caso, para o constatar.
Objectivamente há uma violação das regras e a aplicação das penalidades previstas. E não há, no caso concreto, mais nada a acrescentar ou a retirar. No entanto, os apologistas da irresponsabilidade logo vieram invocar racismo, como se a adversária tivesse uma pele cor de leite, ou o sexismo. Para as criancinhas irresponsáveis o árbitro, que cumpriu as regras, foi um ladrão sexista. Portanto, a criancinha birrenta e privilegiada perdeu, não porque a adversária tivesse jogado melhor, mas porque o árbitro sexista a penalizou por uma quebra de regras confirmada pelo próprio treinador. A adversária que lhe ganhou, como é sabido, era um homem disfarçado.
A criancinha birrenta e os seus irresponsáveis defensores, a exemplo do que é habitual em quem não cresce, também não tem memória de um outro jogo que também perdeu, onde ameaçou de morte a fiscal de campo que assinalou fora uma bola que a birrinhas queria dentro. Uma ameaça de morte que afectou profundamente a vítima. Os privilégios de que goza a queixinhas fizeram com que para a abusadora não houvesse consequências de maior.

Mas se esta atitude das birrinhas é vulgar em vários desportos, é tristemente alarmante ver como a cultura da irresponsabilidade está bem distribuída por toda a humanidade. Por exemplo a incapacidade de analisar o problema em questão, ou qualquer outro.
Analisar é decompor o problema nas suas várias partes. Para o fazer é necessário, antes de mais, espírito crítico e consequentemente capacidade lógica que implica coerência.

Neste problema geral podemos identificar vários problemas particulares: a autodesculpabilizacao, o desviar a culpa para os outros, a manipulação das emoções dos outros, a desvalorização de regras ou leis quando não convêm para logo a seguir as invocar para atacar e ainda outros. Todos revelam a menoridade moral, a irresponsabilidade, a ausência de princípios que são substituídos por interesses a que dão o nome de valores.

A narrativa dominante que é a do poder financeiro e reproduzida pelos amanuenses políticos e jornaleiros, dá a quem a absorve acriticamente, os valores (interesses) à luz dos quais tudo é “ingerido” e cujos resultados são claramente espelhados nos comentários de jornais ou naquilo que essa mesma narrativa chama redes sociais. É fácil ver como se misturam alhos e bugalhos, como se criam postulados (sem qualquer fundamentação) e como a partir daí se produzem opiniões que pretendem passar por factos. Fiéis aos interesses a que chamam valores, só interessa o imediato, o curto prazo e nada é visto em perspectiva, de forma abrangente, de acordo com princípios. Num mundo acrítico, onde o que importa é a opinião, tudo é relativo. Assim, todos exercem o seu “direito” à opinião que não se importa com princípios ou com a verdade. Tudo se faz por reacção e não por acção.
Se o assunto inicial é exemplar do que se passa por todo o mundo, o que actualmente acontece no nosso país e governação (?) é outro exemplo prático do que é irresponsabilidade, incompetência, manipulação e completa ausência de princípios.
Nem vale a pena falar das falsificações e manipulações produzidas sobre os professores e reproduzidas por jornais e TVs. Nem vale a pena falar da confrangedora pobreza argumentativa de ministros ou assessores, seja do ambiente, da defesa, da segurança, ou qualquer outro. Ou falar da banha da cobra que diariamente pretendem vender.
Talvez falar dos descarrilamentos, da falta de pessoal para manutenção de comboios, da supressão de comboios, da falta de pessoal auxiliar, das cada vez maiores falhas de pessoal e material no SNS. Mas desses assuntos os jornais, propriedade de diversos grupos económicos, porque lhes interessa, vão falando no intervalo do que é verdadeiramente importante, o futebol. E aqui podemos encontrar uma outra forma de manipulação, que é o não dito. Quantas vezes veem nos jornais ou TVs notícias sobre a luta de trabalhadores na fábrica x ou y? Da greve dos trabalhadores da distribuição? Dos call center?
Ah! Pensavam que só os malandros dos privilegiados professores é que reclamavam e faziam greve?

Em conclusão, condenados por vontade própria à caverna de Platão, mais do que fazer a apologia da ignorância, faz-se a apologia da irresponsabilidade.

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