segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O bode expiatório e a maioria absoluta ou brevíssima história de infâmia.

 


Desde que a história é história que toda a governação é descrita como violência, prepotência, roubo, assassínio, escravidão. Depois, os gregos inventaram uma coisa a que chamaram democracia e que basicamente consistia em dois clubes de ricos dividirem, mais ou menos alternadamente, o poder. Estabeleceram algumas regras e lá foram à conquista, democraticamente, do seu poder. Em vez da espada usavam a língua na praça pública.
Convém também esclarecer os mais crédulos que as mulheres estavam excluídas do clube, assim como os estrangeiros (não nascidos em Atenas) e obviamente os escravos, ou seja, assim por alto, mais de 80% da população.
Estes números, por si só, seriam suficientes para esclarecer que o objectivo era o poder para o clube e sobretudo pessoal e não qualquer interesse em beneficiar outros a não ser que daí adviesse algum benefício próprio.
Lentamente, o poder da língua foi-se afirmando e, em alguns países mais ricos, graças ao saque que durante séculos foram efectuando pelo mundo fora, começou a tomar forma um estilo de governação a que chamaram democracia e que, basicamente, a exemplo dos atenienses, se dividia em dois clubes que procuravam modos mais eficazes de conquistar e manter o poder sem se matarem uns aos outros. A ascensão da burguesia mercantil exigia alguma paz para a circulação de mercadorias e a nobreza decadente necessitava do dinheiro dessa burguesia. A espada agora era usada contra quem estava contra esta paz. Assim o poder e os seus benefícios chegaram aos nossos dias, com esse nome que concentra todas as hipocrisias e infâmias.
As ditaduras clássicas, um pouco por todo o mundo, têm desaparecido, não por qualquer razão humanitária, mas apenas porque são um entrave à economia global e, consequentemente, à ditadura financeira coberta com a capa de democracia.
No nosso país persiste ainda a perigosa ideia de que a democracia é uma governação benigna, como se toda a governação não fosse o exercício do poder de uns quantos sobre todos os outros.
No nosso país, conhecido internamente como de brandos costumes, apesar dos mais de dois mortos diários nas estradas, das vinte mulheres assassinadas pelos maridos/companheiros, já este ano, apesar dos 19 deputados arguidos em vários processos, apesar dos onze denunciados por terem negócios com o estado, coisa insignificante que a ética de fusão considerou muito bem, apesar das viagens pagas em duplicado e que o chefe do centro de emprego considerou muito bem porque os coitados ganham muito pouco, apesar de inúmeros autarcas arguidos e até condenados, somos democraticamente uma democracia.
Uma democracia onde cada partido mente o que for preciso para manter ou conquistar o poder e, obviamente, o seu benefício pessoal, que tanto pode ser financeiro como uma oportunidade de mostrar as penas de pavão. Paralelamente, embora não seja essa a intenção, é também uma oportunidade de mostrar a incompetência, a ignorância, a má fé. Estes são os que rodeiam o chefe e como se sabe o chefe nunca quer à sua volta gente mais inteligente. São sobretudo estes que funcionam como amanuenses executores de um plano de manutenção do poder. Cabe a estes o papel de agitadores. Aos outros mais inteligentes cabe o papel de propagandistas. Os primeiros são papagueadores incapazes de ver as próprias contradições e inconsistências. Os segundos são especialistas em manipular a linguagem, a exemplo dos antigos sofistas. A sua propaganda é simultaneamente agitação.
Sendo o objectivo a conquista do poder para obtenção de benefícios próprios, podemos verificar como, neste preciso momento essa intenção leva a actuações objectivamente infames.
Porque é o partido que está no poder, atentemos a três ou quatro factos que visam a obtenção da maioria absoluta sem olhar a meios.
Dois factos que aparentemente nada têm a ver com o PS: o partido de Santana e o “sindicato” de professores stop. Dividir para reinar é um princípio elementar da conquista do poder e naturalmente da agitação e propaganda. Perguntemo-nos quem soprou ao ouvido do Santana a ideia da criação de um novo partido? Assim o PSD ficaria ainda mais dividido e perderia peso na oposição ao PS. Quem soprou ao ouvido do sujeito que fundou o stop a ideia de um novo sindicato? No que respeita a sindicatos o PS tem uma tradição de divisionismo que vem pelo menos desde Soares/Gonelha. Pôr um sindicato a realizar um abaixo assinado para ser discutido na assembleia algo que já constava do orçamento de 2018 é matar dois coelhos com uma só cajadada: provocar uma divisão nos professores e fazer com que algo que já constava no orçamento perdesse a validade e, entre outros factos, que ficasse escondida a verdadeira má fé com que o governo enganou os professores com algo que nunca teve a intenção de cumprir, como de resto ontem ficou bem claro com a intervenção de um ministro que nem sabia o que estava a negociar.
Na estratégia do poder absoluto o PS (como de resto PSD ou outro partido) nunca olhou a meios. Ontem veio a lume que a página do partido “ala liberal” no Facebook foi originalmente uma página de apoio a António Costa. O seu líder, que entretanto se demitiu, acusou Santana de lhe ter copiado o seu programa. Interessante coincidência, não?
A infâmia, para não lhe chamar outra coisa, nos tempos recentes torna-se mais notória quando oficialmente decidem atacar a maioria absoluta. Primeiro arrumam com o assunto Sócrates. No mesmo dia, Costa, vários dirigentes do PS e blogues de agitação e propaganda do PS demarcam-se de Sócrates com o silêncio deste, o que indicia o seu acordo com a estratégia. Os ataques a professores acentuam-se com declarações falsas que, vindas de quem têm vindo significam, porque as pessoas em questão são suficientemente inteligentes, pura má fé e deficiência de carácter. Por exemplo as promoções automáticas e sem avaliação, o que é falso e basta ler o decreto de lei para o confirmar.

Colocando os professores como o bode expiatório e causadores de todos os males, o PS arranja uma forma de distrair o pessoal da incompetência manifesta na sua própria argumentação plena de má fé.
Um dos exemplos mais ridículos desta má fé é a prova de incompetência no anúncio da reforma a pessoas com sessenta anos e que tivessem começado a trabalhar aos doze. Ora em 1967, ano em que com doze anos comecei a trabalhar, a idade mínima legal era de catorze anos. De 1967 a 2017 são 50. Se lhe somarmos os catorze legais são 64 ou os doze ficcionais serão 62. Quem então poderá ser beneficiado? Ninguém. Pura incompetência e má fé.
Mas enquanto se discutem professores não se fala dos vários descarrilamentos de comboio já este ano, da quantidade de comboios avariados, do ridículo de um ar condicionado que não funciona nos Alfa ou de um ministro a fazer horários de comboios para a linha de Cascais. Ou do pseudo esforço de contratar médicos quando o número de vagas é inferior ao de médicos reformados e muito abaixo das necessidades. E ainda, acerca do mesmo assunto, sobre o motivo porque vagas para médicos de família ficaram por preencher. Ou porque continuam enfermeiros a emigrar. Ou porque continuam uns e outros a trabalhar como especialistas e a receber como indiferenciados.
A táctica de pôr trabalhadores, uns contra outros, sempre rendeu e basta pôr os agitadores mais rascas a mandar umas bocas e a inflamar os ânimos.

Os professores como bode expiatório são apenas um instrumento para a maioria absoluta e para fazer render até à proximidade das eleições. Depois, já bem perto, dá-se uma bolachinha ou um biscoitinho e lá vêm mais uns votos. Entretanto, por exaustão, alguns já estarão prontos para aceitar qualquer coisa. Para o governo basta continuar a fazer aquilo que melhor fazem: nada.

Os outros como objecto para satisfazer os interesses próprios é intrínseco a todos os partidos. É também preciso não esquecer que foram os vários partidos ao longo de décadas que criaram, em benefício próprio, a situação de que agora se queixam.

A infâmia é generalizada.

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