segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Os criminosos

 


Os velhos são um problema para a economia. (Lagarde do FMI)

Os velhos “são a peste grisalha” de um parasita que vive no parlamento à nossa custa
Estas são apenas três frases indiciadoras de vários factos muito importantes e sempre descurados.
O primeiro é que, como se pode concluir, antes da humanidade, antes dos seres humanos, está a economia a quem todos devem servir. Ou seja, a humanidade não é importante, a economia sim. Restaria perguntar para que serve a economia sem os humanos.  
O segundo é que os velhos são, na prática, os responsáveis pela má saúde da economia porque se recusam a morrer. Há, portanto, que matá-los, apesar de a indústria da saúde muito lucrar com eles.
O terceiro é que estas afirmações públicas, para além de revelarem a inexistência de qualquer pudor moral, revelam algo mais grave que é o cada vez mais baixo nível intelectual de quem as profere e ocupa lugares de destaque na governação do país e do mundo. Se a inexistência de moral é grave, a estupidez e incompetência acabam por se revelar ainda mais danosas porque quem deveria resolver os problemas apenas contribui para os agravar.
O quarto, que talvez devesse ser o primeiro, é chamar-vos a atenção para os actos criminosos de quem tem governado o país nos últimos 40 anos e escapado impune e até com fama de bons rapazes.
Peguemos no exemplo da segurança social. Podemos começar pelos mais recentes governantes (?) que cortam em tudo o que mexe e que manipulam estatísticas para fingir que o país está melhor apesar de as pessoas não estarem (isto nas suas próprias palavras). Depois podemos ir recuando até aos governos onde se criou o serviço nacional de saúde, se implementou um rendimento de inserção, etc. Coisas óptimas e algumas até de uma justiça elementar. Para ser bonzinho poderia dizer que se esqueceram de criar as condições, logo de imediato, para sustentar todas essa dádivas. Mas eles não se esqueceram, simplesmente não o quiseram fazer porque isso teria custos imediatos na sua manutenção no poder. Como tal, mantiveram as benesses, sabendo que em pouco tempo não haveria onde ir buscar o dinheiro para pagar. Pior que isso, os que andavam a pagar 33% do seu salário para a segurança social não teriam pensões porque o seu fundo foi completamente delapidado.
Voltando ainda mais atrás, para cobrirmos os tais quarenta anos, foram concedidas pensões a trabalhadores que nunca haviam feito qualquer desconto, em particular empregadas domésticas e trabalhadores do campo. Também esta medida me pareceu e continua a parecer de elementar justiça, pois sempre estes trabalhadores foram, de uma ou outra forma ludibriados. Foi portanto um acto justo. No entanto, não deixou de ser um acto criminoso porque foi o mesmo que roubar o mealheiro de uns para benefício próprio. Sim, benefício próprio, porque mais uma vez o que está subjacente não é o justo ou a justiça, mas a vontade de poder não olhando a meios.
Primeira conclusão: Todas as benesses foram dadas à custa de que pagou e serviram sempre para comprar os votos que os levariam ou manteriam no poder. Nunca se preocupando em prevenir a consequência dos seus actos foram e são criminosos.
Há mais de trinta anos que se sabia do envelhecimento populacional e da baixa de natalidade que naturalmente iria afectar as contribuições para a segurança social. Quando esta foi instituída, calculou-se uma idade de reforma em função da esperança média de vida. Mas há trinta anos essa esperança média de vida já aumentara quase para mais dez anos. Ou seja, o valor descontado com base numa previsão média de vida já estavam ultrapassados.
Algum governo mexeu uma palhinha que fosse para compensar esta situação? Criminosamente continuaram a nada fazer porque o seu interesse era o poder, fosse por simples vaidade, fosse para daí retirar outros benefícios como se pode ver por quase todos os que passaram pelos vários governos.
Haverá algumas excepções individuais. Mas na prática chegamos a uma situação em que só quando os fundos da segurança social foram esvaziados se procuram soluções. Na linha da incompetência vigente, a solução é a mais fácil: cortar pensões, aumentar idade de reforma, aumentar impostos.
Mas de estruturante, o que é que realmente se fez?
Nada.
A das finanças diz que não disse que vão cortar 600 milhões nas pensões. Li há dias uma notícia (que carece de confirmação) que afirmava serem na ordem dos 100 milhões as pensões milionárias e genericamente os beneficiários eram políticos. Isto apenas confirma os benefícios de que atrás falei.
Conclusão final (provisória): todos os governos e governantes dos últimos 40 anos são criminosamente culpados da situação em que estamos. E os que calam, os que se alegram com as benesses recebidas e por menos de trinta dinheiros se venderam também irão sofrer e pagar com língua de palmo a sua cegueira voluntária.
Os sumo-sacerdotes da sacro-santa economia disso se encarregarão.

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