Ultimamente tenho-me entretido com uns exercícios
terapêuticos que consistem em escrever pequenas estorietas sem princípio nem fim
e sem outro objectivo que o de recuperar um prazer de juventude que era
escrever.
Aqui vai a primeira.
A água suja embate regularmente na parede do cais
onde o pequeno barco chegará em breve. Dezenas de peixes movimentam-se na busca
de alimento e espanto-me com a sua quantidade e sobretudo com a sua capacidade
de adaptação a águas tão poluídas. A poucos metros um esgoto alimenta-os. Ao
longo do paredão pescadores lançam o isco e esperam indiferentes às águas
poluídas. Se o peixe ali vive não será à mesa que os matará. E talvez até os
ajude a sobreviver num ambiente cada vez mais hostil. Pelo menos é a conversa.
Provavelmente indiferentes a estas filosofices, os estafetas escravos dos
traficantes da pasteleira vão saindo do antigo quartel militar que agora lhes
serve de refúgio e em passo acelerado sobem pela rua do fluvial para a primeira
dose do dia, primeira viagem de entrega ao domicílio. É preciso correr para
ganhar mais uma dose, fazer mais uma entrega. O quartel é mais perto da zona de
abastecimento e não está sujeita às regras do abrigo da câmara. Ao lado um
condomínio de algum luxo e mais acima o “fluvial “, mais adivinhado que visto,
devido à névoa que tão frequentemente sobe do rio e se espalha pelas encostas e
arribas. Ainda assim notam-se silhuetas de algumas casas de quintas que se
penduram ao longo da subida, quase até ao Miradouro de Sta. Catarina com a sua
capela. O nevoeiro já não permite ver tão longe, nem sequer a cor de algumas das
casas de quinta pintadas com aquele amarelo característico das antigas casas
alentejanas. Também há uma diferença que o dinheiro paga. No Alentejo era o
barro a matéria prima para pintar as barras que delineavam janelas e portas. O
resto das paredes eram caiadas de branco. Aqui o amarelo enche as paredes e é
tinta sintética, provavelmente preparada para exteriores e à prova de
infiltrações. Rodeando as quintas, algumas casas de habitação, envelhecidas
umas, outras recuperadas e hoje, todas perdidas no nevoeiro, apesar de leve,
como perdidos estão os estafetas. À minha esquerda, ao longo da marginal, na
direcção da foz, há moradias individuais com vista privilegiada para o rio e
também para o odor privilegiado da ETAR. Mais além só a memória vê alguns
edifícios baixos e antigos e mais adiante o porto dos pescadores e a casa dos
pilotos da barra com o seu farol.
Aqui, o cais que já foi um local de grande
movimento e onde em tempos funcionou um estaleiro, está mais ou menos ao
abandono. Olhando os restos de madeira e velhas carcaças e outras ruínas do
passado, é difícil imaginar que este cais do ouro já foi, talvez, o mais
importante estaleiro naval do Porto e onde, só na época dos Filipes, apenas numa
empreitada foram construídos dezoito galeões, provavelmente destruídos no
desastre que foi a armada invencível.
O barco que nos vem buscar é um pouco
clandestino. O pescador que o dirige tem licença de pesca mas não de transporte
de passageiros. Aceitou levar-me e ao meu amigo turista de ocasião porque
ganhava uns euros sem grande esforço e era uma viagem curta até à vila
piscatória na outra margem. É o marido de uma das raríssimas peixeiras
ambulantes que ainda por cá existem e a quem costumo comprar o peixe fresco.
Enquanto esperamos olho o único pescador, de idade indeterminada, que se ocupa
na reparação de uma rede de pesca, com as costas apoiadas ao seu pequeno barco.
De súbito ocorreu-me ser um personagem de Hemingway. Nunca gostei de barcos e
muito menos destas “traineiras”que bailam na água ao sabor de qualquer corrente
ou ondulação, sem que eu saiba como controlar. E o barco que aparece do nevoeiro
não me dá grande confiança. Mas é preciso pensar que se há anos que atravessa as
águas e é instrumento precioso para alimentar o pescador e família, não será
hoje que vai falhar. A mulher desce do barco com o cesto do peixe que irá vender
no seu posto habitual. Enfia o braço na asa, atravessa a marginal, contorna o
quartel e perde-se no nevoeiro e na subida das Condominhas. É preciso agora
alguma concentração para entrar no pequeno barco e não o desequilibrar. Os
bancos são apenas duas tábuas, onde nos sentamos e aonde me agarro como se fosse
um cinto de segurança. Pelo menos este está equipado com um motor suficiente
para o mover e não será necessário pegar nos remos, espero. Apesar de leve, o
nevoeiro não permite ver com nitidez a outra margem. Apenas silhuetas
indecifráveis indicando que algo sólido existe do outro lado. Assalta-me o
súbito desejo de um café no quiosque do jardim mesmo no ponto em que o rio e o
mar se confundem. Mas, paciência. Este barquito não tem serviço de bar.
Semicerrando os olhos procuro ver o observatório de aves a poucos metros do cais
que acabamos de deixar. Em dias de sol vê-se facilmente a reserva na outra
margem. Hoje apenas se ouve a sua comunicação barulhenta embora curiosamente
agradável. À medida que nos afastamos da margem procuro outras referências. Mas
para além da silhueta próxima da ponte da Arrábida, tudo o resto é difuso. Nem
os prédios de luxo construídos pela marginal fora, em direcção à ponte e
encostados à arriba, são nítidos. Muito menos o largo onde por vezes almoçava ou
jantava em algum dos vários restaurantes. O barco balançava e o pescador ia-nos
tranquilizando que isto hoje, apesar da nevoazita está calmo. Enquanto o cais
que deixaramos se vai esfumando, a outra margem ganha contornos quase
identificáveis. Edificios, e barcos. Muitos barcos ou não fosse uma aldeia
piscatória. Com uma agilidade insuspeita o barquito evita todos os obstáculos e
encosta no ancoradouro. Com as pernas um bocado tremeliques, ponho o pé em terra
firme.
Mau dia para ver o Porto a partir da outra margem que é sem dúvida de
onde se tem a melhor perspectiva da cidade. Mas ainda é cedo e normalmente nesta
época este nevoeiro ligeiro levanta a meio da manhã. Vamos procurar “a casa do
pescador” e comer um pequeno almoço calmamente. E beber um café. Sobretudo beber
um café. Finalmente o nevoeiro desapareceu e como uma pintura subitamente
desvelada, revela-se na outra margem um casario que sobe pelas encostas e se
espalha por ruas, ruelas, quelhas, numa mistura de antigo e moderno. Cúmplice, o
sol reflete-se nas águas anormalmente pacíficas do Douro e contribui para uma
visão quase etérea da paisagem com a capela de Santa Catarina no alto. Aquela
luminosidade lembra-me a lenda sobre a origem da outra capela, a da sra da
ajuda, a curta distância do cais do Douro. De onde agora nos encontramos, a
curva do rio a seguir à ponte já não nos permite a vista da zona da alfandega e
da ribeira, núcleo da cidade antiga que daí se estendeu até à foz do rio e para
o interior, tendo a circunvalação como fronteira com os outros concelhos, embora
aqui e ali se estique um pouco para lá. A tela que se nos oferece mostra
edifícios novos e caros, junto à ponte, encostados à escarpa, com vista
magnífica para o rio, de um dos lados enquanto do outro tem uma vista
privilegiada para a escarpa que deve estar a menos de dez metros e ultrapassa em
altura o edifício. Eventualmente para segurar alguma derrocada da escarpa.
Seguindo o olhar em direcção à Foz e ao longo da marginal, alguns edifícios
antigos agora recuperados. Numa estreita língua de terra uma curiosidade,
provavelmente única ; um mictório público em ferro fundido. Na verdade não o
consigo ver deste lado do rio e não posso garantir que ainda exista. Já há algum
tempo que não passo pelo local. Por aí costumam ver-se pequenos grupos de
homens, provavelmente reformados, que se entretêm em intermináveis jogos de
cartas regados com umas cervejas. Eventualmente, nos intervalos, armados com as
suas canas de pesca e com a caixa do isco espalhar-se-ão ao longo do paredão e
talvez algum peixe se junte ao convívio num churrasco à beira rio.
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