sexta-feira, 5 de maio de 2023

Estorietas incompletas (1)

Estorietas incompletas.  

Ultimamente tenho-me entretido com uns exercícios terapêuticos que consistem em escrever pequenas estorietas sem princípio nem fim e sem outro objectivo que o de recuperar um prazer de juventude que era escrever.  

Aqui vai a primeira. 

A água suja embate regularmente na parede do cais onde o pequeno barco chegará em breve. Dezenas de peixes movimentam-se na busca de alimento e espanto-me com a sua quantidade e sobretudo com a sua capacidade de adaptação a águas tão poluídas. A poucos metros um esgoto alimenta-os. Ao longo do paredão pescadores lançam o isco e esperam indiferentes às águas poluídas. Se o peixe ali vive não será à mesa que os matará. E talvez até os ajude a sobreviver num ambiente cada vez mais hostil. Pelo menos é a conversa. 
Provavelmente indiferentes a estas filosofices, os estafetas escravos dos traficantes da pasteleira vão saindo do antigo quartel militar que agora lhes serve de refúgio e em passo acelerado sobem pela rua do fluvial para a primeira dose do dia, primeira viagem de entrega ao domicílio. É preciso correr para ganhar mais uma dose, fazer mais uma entrega. O quartel é mais perto da zona de abastecimento e não está sujeita às regras do abrigo da câmara. Ao lado um condomínio de algum luxo e mais acima o “fluvial “, mais adivinhado que visto, devido à névoa que tão frequentemente sobe do rio e se espalha pelas encostas e arribas. Ainda assim notam-se silhuetas de algumas casas de quintas que se penduram ao longo da subida, quase até ao Miradouro de Sta. Catarina com a sua capela. O nevoeiro já não permite ver tão longe, nem sequer a cor de algumas das casas de quinta pintadas com aquele amarelo característico das antigas casas alentejanas. Também há uma diferença que o dinheiro paga. No Alentejo era o barro a matéria prima para pintar as barras que delineavam janelas e portas. O resto das paredes eram caiadas de branco. Aqui o amarelo enche as paredes e é tinta sintética, provavelmente preparada para exteriores e à prova de infiltrações. Rodeando as quintas, algumas casas de habitação, envelhecidas umas, outras recuperadas e hoje, todas perdidas no nevoeiro, apesar de leve, como perdidos estão os estafetas. À minha esquerda, ao longo da marginal, na direcção da foz, há moradias individuais com vista privilegiada para o rio e também para o odor privilegiado da ETAR. Mais além só a memória vê alguns edifícios baixos e antigos e mais adiante o porto dos pescadores e a casa dos pilotos da barra com o seu farol. 
Aqui, o cais que já foi um local de grande movimento e onde em tempos funcionou um estaleiro, está mais ou menos ao abandono. Olhando os restos de madeira e velhas carcaças e outras ruínas do passado, é difícil imaginar que este cais do ouro já foi, talvez, o mais importante estaleiro naval do Porto e onde, só na época dos Filipes, apenas numa empreitada foram construídos dezoito galeões, provavelmente destruídos no desastre que foi a armada invencível. 
 O barco que nos vem buscar é um pouco clandestino. O pescador que o dirige tem licença de pesca mas não de transporte de passageiros. Aceitou levar-me e ao meu amigo turista de ocasião porque ganhava uns euros sem grande esforço e era uma viagem curta até à vila piscatória na outra margem. É o marido de uma das raríssimas peixeiras ambulantes que ainda por cá existem e a quem costumo comprar o peixe fresco. Enquanto esperamos olho o único pescador, de idade indeterminada, que se ocupa na reparação de uma rede de pesca, com as costas apoiadas ao seu pequeno barco. De súbito ocorreu-me ser um personagem de Hemingway. Nunca gostei de barcos e muito menos destas “traineiras”que bailam na água ao sabor de qualquer corrente ou ondulação, sem que eu saiba como controlar. E o barco que aparece do nevoeiro não me dá grande confiança. Mas é preciso pensar que se há anos que atravessa as águas e é instrumento precioso para alimentar o pescador e família, não será hoje que vai falhar. A mulher desce do barco com o cesto do peixe que irá vender no seu posto habitual. Enfia o braço na asa, atravessa a marginal, contorna o quartel e perde-se no nevoeiro e na subida das Condominhas. É preciso agora alguma concentração para entrar no pequeno barco e não o desequilibrar. Os bancos são apenas duas tábuas, onde nos sentamos e aonde me agarro como se fosse um cinto de segurança. Pelo menos este está equipado com um motor suficiente para o mover e não será necessário pegar nos remos, espero. Apesar de leve, o nevoeiro não permite ver com nitidez a outra margem. Apenas silhuetas indecifráveis indicando que algo sólido existe do outro lado. Assalta-me o súbito desejo de um café no quiosque do jardim mesmo no ponto em que o rio e o mar se confundem. Mas, paciência. Este barquito não tem serviço de bar. Semicerrando os olhos procuro ver o observatório de aves a poucos metros do cais que acabamos de deixar. Em dias de sol vê-se facilmente a reserva na outra margem. Hoje apenas se ouve a sua comunicação barulhenta embora curiosamente agradável. À medida que nos afastamos da margem procuro outras referências. Mas para além da silhueta próxima da ponte da Arrábida, tudo o resto é difuso. Nem os prédios de luxo construídos pela marginal fora, em direcção à ponte e encostados à arriba, são nítidos. Muito menos o largo onde por vezes almoçava ou jantava em algum dos vários restaurantes. O barco balançava e o pescador ia-nos tranquilizando que isto hoje, apesar da nevoazita está calmo. Enquanto o cais que deixaramos se vai esfumando, a outra margem ganha contornos quase identificáveis. Edificios, e barcos. Muitos barcos ou não fosse uma aldeia piscatória. Com uma agilidade insuspeita o barquito evita todos os obstáculos e encosta no ancoradouro. Com as pernas um bocado tremeliques, ponho o pé em terra firme. 
Mau dia para ver o Porto a partir da outra margem que é sem dúvida de onde se tem a melhor perspectiva da cidade. Mas ainda é cedo e normalmente nesta época este nevoeiro ligeiro levanta a meio da manhã. Vamos procurar “a casa do pescador” e comer um pequeno almoço calmamente. E beber um café. Sobretudo beber um café. Finalmente o nevoeiro desapareceu e como uma pintura subitamente desvelada, revela-se na outra margem um casario que sobe pelas encostas e se espalha por ruas, ruelas, quelhas, numa mistura de antigo e moderno. Cúmplice, o sol reflete-se nas águas anormalmente pacíficas do Douro e contribui para uma visão quase etérea da paisagem com a capela de Santa Catarina no alto. Aquela luminosidade lembra-me a lenda sobre a origem da outra capela, a da sra da ajuda, a curta distância do cais do Douro. De onde agora nos encontramos, a curva do rio a seguir à ponte já não nos permite a vista da zona da alfandega e da ribeira, núcleo da cidade antiga que daí se estendeu até à foz do rio e para o interior, tendo a circunvalação como fronteira com os outros concelhos, embora aqui e ali se estique um pouco para lá. A tela que se nos oferece mostra edifícios novos e caros, junto à ponte, encostados à escarpa, com vista magnífica para o rio, de um dos lados enquanto do outro tem uma vista privilegiada para a escarpa que deve estar a menos de dez metros e ultrapassa em altura o edifício. Eventualmente para segurar alguma derrocada da escarpa. Seguindo o olhar em direcção à Foz e ao longo da marginal, alguns edifícios antigos agora recuperados. Numa estreita língua de terra uma curiosidade, provavelmente única ; um mictório público em ferro fundido. Na verdade não o consigo ver deste lado do rio e não posso garantir que ainda exista. Já há algum tempo que não passo pelo local. Por aí costumam ver-se pequenos grupos de homens, provavelmente reformados, que se entretêm em intermináveis jogos de cartas regados com umas cervejas. Eventualmente, nos intervalos, armados com as suas canas de pesca e com a caixa do isco espalhar-se-ão ao longo do paredão e talvez algum peixe se junte ao convívio num churrasco à beira rio.

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