- Senhor, paga-me
um croissant e uma meia de leite? Ainda não comi nada hoje.
- Um
novato. Já sabem que não dou “moedinhas”
- Estes
gajos têm a mania que são doutores.
Ignora-o e
começa a subida íngreme embora curta. As árvores do jardim botânico, debruçadas
para a rua, deixavam no passeio um tapete de folhas que, molhadas pela recente
chuvada, se tornaram perigosamente escorregadias para quem desce.
Atravessa
para a outra rua e deixa para trás o café onde, no regresso, irá beber o
cimbalino.
- Então
hoje não vai um cafezinho?
- Mais
logo. Mais logo.
Os
edifícios, sempre os mesmos. Os passantes são ignorados excepto os pedintes que
vão mudando consoante os turnos e o tempo em que ocupam o mesmo lugar. Nunca se
sabe o que esperar.
Àquela hora
há muito movimento de entrada e saída de escritórios, de procura de algum dos
muitos restaurantes ou cafés que sirvam uma refeição, normalmente simples e
barata.
Depois da
rotunda, o antigo mercado, agora mais um centro comercial. Na esquina,
escondidas, as estátuas nuas do Cutileiro que tanto escândalo causaram na
época.
A
proximidade de quatro faculdades altera a idade das pessoas com quem se cruza.
São mais jovens e barulhentos.
Um conjunto
de pavilhões pré fabricados e um antigo palacete à entrada, foi o local da sua
antiga faculdade. Quase em frente o café botânico.
Senta-se na
esplanada coberta.
- Então é
agora o cafezinho?
- Claro que
sim senhor Sousa. Já sabe o que quero.
Começa a
descida para casa, pelo passeio menos escorregadio. No cruzamento uma velha “conhecida”,
cada vez mais magra e doente.
- Ó senhor.
Ó senhor. Dê-me dinheiro para o autocarro senão chego atrasada à instituição.
Deu-lhe o
dinheiro para o autocarro. Foi a última vez que a viu.
Chega a
casa. Quatro quilómetros e meio numa hora e cinco minutos. Nada mau
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