segunda-feira, 26 de outubro de 2020

O lugar de esperar

 


Com a noite saiu de casa seguro no cajado. Não sabia bem o destino dos seus passos, apenas que eles o levariam ao seu lugar. Lentos, amparados, percorriam o caminho que a cabeça bem conhecia e os olhos recusavam ver. Gostava do nascer do sol, por isso as suas viagens começavam pela noite, quase madrugada. Os primeiros raios da luz encontravam-no à espera. Se o caminho seguia para nascente, não parava e gostava de ver como as sombras ficavam menos sombrias e iam tomando a forma das árvores, dos arbustos, das rochas. Se os acasos o levavam em direcção contrária, parava e haveria sempre de encontrar uma parede ou pedra que lhe servisse de assento. Virava o olhar para nascente e, pacientemente, começava a espera enquanto a luz delineava as sombras. Em todos os seus dias não se lembrava de um cansaço que o impedisse de apreciar esse espectáculo de luz e sombras. Também gostava do pôr-dosol, mas não tanto. Aí as sombras diluíam-se e do que gostava mesmo era de ver o sol dar-lhes forma.
O destino era longe, mas o trajecto curto. Só os passos eram lentos, muito lentos, como se quisessem demorar a chegada. A cabeça bem sabia que não era assim. Apenas a lentidão dos anos os demorava. Não tinha pressa e a cabeça não haveria de se intrometer na viagem. Que descansasse que já estava velha e sobretudo cansada. Lentos, os passos continuavam a caminhada levando o corpo, os braços e a cabeça que dormitava. Quando não se pensa chegase mais depressa ao que acreditamos ser o destino.
Na curva seguinte os olhos viram os muros caiados de branco, o portão alto com grades de ferro. Ultrapassou a curva, atravessou a ponte e quase com pressa chegou ao portão. Para sua surpresa estava fechado à chave. Se fosse mais jovem ou tivesse mais vigor saltaria a parede. Mas agora mal conseguia levantar o joelho. Procurou uma árvore entre o exterior do muro e a estrada. Uma pedra junto ao tronco era o assento com encosto ideal para aquela hora. Iria esperar. Alguém chegaria com a chave, abriria o portão e então poderia ocupar o lugar que há tanto tempo esperava por ele. Ou seria ele que esperava pelo lugar? Já não se lembrava, nem tinha importância. Agora estava ali. Seria apenas mais uma espera, a última.
Sentado na pedra, as costas apoiadas no tronco da árvore, bastava-lhe olhar em frente, ao longo do vale, para ver ao fundo aparecerem os primeiro raios do sol, os últimos raios do sol.
Bons dias! Sobressaltado olhou o homem que o cumprimentara. Não o sentira chegar e à sua volta não havia obstáculos que impedissem a vista. Veio por detrás, em passinhos de lã, para o não ouvir. O recém-chegado, pelo aspecto, teria quase a sua idade. Consigo trazia uma picareta e uma pá. Muito peso para quem não pareceria sustentar o próprio corpo. Sou eu que tomo conta aqui da casa. Mas agora não posso entrar. Alguém perdeu a chave do portão e ninguém sabe quem foi. Ultimamente isto tem acontecido muito. Às vezes anda desaparecida semanas. Depois, sem ninguém saber como ou de onde, ela aí está, no buraco da fechadura, na mesa da empregada da junta, no balcão do café. Sempre em sítios diferentes. Nunca alguém vê quem a deixa. Também ninguém parece preocupado ou ter pressa em descobrir-lhe as andanças ou o paradeiro. Alguns dizem que são os moradores aqui do lugar que a escondem. Querem sossego e há visitas demasiado barulhentas. Os que aqui estão perturbam-se com as lágrimas de circunstância, mas ficam ainda mais perturbados com a dor verdadeira de quem os visita. São restos dos sonhos ou dos pesadelos que ainda os mantêm acordados e eles só querem dormir, só querem esquecer, descansar finalmente. Estou à espera. A cabeça decidiu que o meu lugar estava a chamar-me e os passos trouxeram-me. É melhor não ficar aqui. Procure um lugar para esperar. A chave pode demorar a aparecer. Preciso de entrar hoje, agora ou então daqui a mais um bocadinho, depois de o sol dar forma à sombra destas árvores. Está a ver os castanheiros lá ao longe? Olhe como a luz lhes vais desenhando a sombra! Mas o outro, como chegara, desaparecera. Sem qualquer som ou brisa. Nem a picareta ou a pá deixaram rasto. De súbito assustou-se. Ninguém aparece ou desaparece daquela maneira. O aparecido desaparecido tinha a sua idade, vestia como ele. Não trazia foice ou goiva, mas picareta e pá. Sentiu no rosto o calor. Esperou. Com o sol já alto do meio-dia, a cabeça decidiu que aquele não era o melhor lugar para esperar.
Não gostava de caminhar pelo calor do dia. Agora não havia remédio. Fora apanhado pela falta da chave. Precisava encontrar a frescura de uma sombra onde esperar. Talvez afinal a cabeça se tivesse enganado e o seu lugar ainda não estivesse pronto. Sabia onde esperar. A casa que não pensara rever ficava no caminho. Recolheu-se longe da luz quente. Agora sim, pela última vez descansava naquela cama, de olhos abertos, fixando nada. Apenas olhos abertos, distraídos da vida. A luz foi desaparecendo, lentamente. Finalmente, com a noite, as sombras desapareceram, apenas a escuridão ficou. Esperou pela lua. O seu reflexo de luz seria suficiente. Conhecia bem o caminho. Conhecia-o desde menino, desde que os pés descalços contaram as arestas de cada pedra. Sem nada olhar, levantou-se, desceu as escadas e pela última vez fechou a porta da casa que construíra com as suas mãos.
Desceu a rua que, sabia-o, não voltaria a subir. Não ouviu a água da fonte onde ritualmente molhava os lábios. Nada ouvia ou via, apenas os passos inquietos, incertos, trôpegos, quase cegos o levavam. Também os passos sabiam que não voltariam.    

Iluminados pelo luar, os passos levaram-no em frente, ignorando a velha calçada medieval que subia à esquerda, melhor caminho e mais curto.
Não era esse o trajecto do seu coração.
Devagar, silenciosos apesar da dificuldade, os passos continuaram. Os cães que à sua passagem se ouviam ficaram para trás. Não voltariam a incomodar-se consigo. À direita começou a ver o telhado da casa onde nascera o filho do meio. À esquerda apareceu o caminho que seguia para o seu destino provisório, o lugar de esperar.
Seguiu pelo caminho de terra e pedras soltas, outrora pouco mais que uma vereda. O progresso furara a terra, rebentara com rochas e escavara uma vala suficientemente profunda e larga para acolher as canalizações que subiam com a água até à vila. A antiga vereda era agora quase uma auto-estrada de terra. Até o enorme rochedo que havia na primeira curva desaparecera. Quantas vezes não tivera que tirar toda a carga ao burro, seguir pela estreita passagem e do outro lado voltar a colocar a carga sobre o animal.
Já não havia burro e a horta há muito que não era sua. Mas as oliveiras que as suas mãos plantaram, as laranjeiras, as pereiras, as macieiras, os pessegueiros, as figueiras, os castanheiros, as videiras, continuavam suas no coração, na memória.
Ouvia agora o som do riacho a saltar alguma rocha que lhe queria impedir o avanço. Na parte do caminho onde se encontrava não se via a horta. Teria que subir um pouco mais e então o luar iria permitir-lhe ver as suas árvores. O cheiro a urze, a giestas, a carqueja, dava-lhe o alento para a subida.
O cheiro da terra! O perfume da terra! E aquele mato a envolver as suas árvores. O mato que as sufocava, que as matava. O mato que o sufocava, como naquele dia em que quase morrera. Foi como se tivesse morrido. Fosse o pau que lhe travara o passo ou o corpo que se esquecera de levantar o pé, deu por si caído abaixo da barreira, sem conseguir mover-se. As dores eram insuportáveis e era inútil gritar. Ninguém o ouviria. As dores gritaram. Ninguém vivia ou trabalhava nos campos em volta. Dores inúteis que nem o seu grito levavam ao destino. Não conseguia mover-se. A coluna que há tantos anos se queixava deixava-o agora imobilizado. Foram as horas passando. O sol que antes lhe queimava o rosto e o obrigava a fechar os olhos, declinava. Já desistira de se tentar arrastar. Os braços não tinham força, as dores eram demasiadas e os gritos inúteis. Restava-lhe esperar. Alguém daria pela sua falta e viria procurá-lo. A lua chegava quando alguém veio. Movê-lo era uma dor sem fim. Seria melhor chamar os bombeiros. Naquele tempo havia apenas um carreiro acidentado e por vezes escorregadio, que os maqueiros percorreram a pé. O mais difícil foi descer os socalcos. Apesar de amarrado à maca, qualquer movimento era uma dor sem remédio. Mais que uma vez um dos maqueiros escorregou. Chegaram a uma parte mais regular e suave. Tentou virar a cabeça para ver as suas árvores, para olhar a vida que ficara esquecida para trás. Não conseguiu. Também não conseguiu mover as pernas. Finalmente a ambulância. Cada ressalto, cada curva, mais uma dor. Uma dor que permanecia sem interrupções. No hospital diagnosticaram umas costelas partidas. Andar não seria problema, mas nunca mais fazer esforços. E o colete? Porque não usava o colete? E como se pode trabalhar a terra com aquele colete? A coluna não aguenta esse esforço. Ou o colete ou uma cama, definitivamente.
Ganhou o colete. Vendeu a horta por dinheiro nenhum. Lá continuou esquecida a vida e começou a sua espera.
Desde esse dia empenhou-se em esquecer. Quis esquecer tudo. Existir apenas, sem um amanhã, sem um logo, sem um agora. Apagar as dores todas. Apagar a dor. Mas a dor não se apagava e a amargura foi crescendo. Os dias sós, traziam-lhe a vida toda, a que vivera e a que queria ter vivido. O que fizera e o que não tentara sequer. Agora que a vida o iria verdadeiramente deixar, a amargura aumentava como um prenúncio que o tornava mais só. Chegou à conclusão de que o seu lugar o esperava. Talvez o esperasse há já muito tempo e não tivesse dado conta. Levantou-se antes da madrugada. Sem pressas vestiu-se, desceu as escadas, pegou no cajado e saiu. Os passos levá-lo-iam ao destino. Sempre confiara neles quando a cabeça não sabia o que fazer.

Apesar de os olhos já não verem bem e da fraca luz da lua, conseguia distinguir todas as árvores e até a sua cor. Tudo estava presente e vivo na sua cabeça. Todas as oliveiras, todos os castanheiros, as videiras, até as flores em volta do tanque de rega. Podia ainda ouvir a água que corria para o encher. E o coaxar das rãs.
Fazia-se tarde. Tinha ainda o resto do caminho para andar. Levantou-se e levando a mão ao peito, fez o mesmo gesto de quando lançava as sementes. Assim espalhou pela sua terra o que lhe restava do coração. Era onde guardava a amargura e queria seguir leve para o lugar onde iria esperar.
O caminho começou a subir e, lentos, os passos foram-no levando. Há muitos anos que não ia por aqueles lados, mas lembrava-se bem do caminho e agora o piso estava bastante melhor, apesar das muitas pedras soltas.
Chegou à primeira bifurcação e seguiu pela esquerda. O cão ladrou com um som forte, selvagem. Mais parecia uma voz de lobo. Uma casa assim isolada necessitava de um guarda que infundisse respeito. Quase imperceptivelmente passou afastado do portão. Uma luz frouxa iluminou uma janela. Ouviu-se um assobio e o cão calou-se. O dono da casa conhecia-o e o luar e os olhos habituados à escuridão disseram-lhe quem era. Mandou calar o cão, apagou a luz e ficou a observar os passos que apesar de trôpegos seguiam decididos no seu destino. Por ali só poderia dirigir-se para o lugar lá em cima, o lugar onde se espera, devagar… devagar…
Mais um pouco e os passos chegaram a nova bifurcação. Pela esquerda começaria a descer a calçada medieval que terminava perto da sua casa. Seguiu pela direita, agora sempre a subir até ao lugar. As pernas cansadas atrasavam os passos, só a cabeça os obrigava a mover. Lentamente ia contando a distância para a próxima curva. Chegado lá, iniciava a contagem para a seguinte. Assim ia distraindo passos, corpo e cabeça, da dificuldade crescente. A madrugada estava a chegar. O luar já desaparecera e era agora o sol a querer espreitar. Queria parar. O corpo exigia-lhe que parasse. E ele queria ver as sombras a tomar forma. Não podia parar. Sabia que se o fizesse não teria forças para continuar. Era preciso obrigar os passos a mover-se. Era preciso chegar antes do sol. A custo, os passos arrastaram-se. Finalmente viu a porta e o poial de pedra onde se deixou cair.

Esperávamo-lo mais cedo. Mas seja qual for a hora é bem-vindo. Não disse a ninguém que viria. Sabíamos que iria chegar. Sabemos sempre. Tinha uma forma meio espanhola de falar. Mas não era espanhola. Ali, com a fronteira bem à vista, conhecera, na época do contrabando, muitos espanhóis. Não era assim que falavam. Percorreram os claustros frios. Gostava de claustros, daquela arquitectura que respeitava o silêncio e as conversas consigo mesmo. O quarto tinha quatro camas, só uma vaga, a sua. Agora descanse, depois viremos chamá-lo para o café da manhã. Talvez não queira o café. Talvez descansar. Descansar!
Acordou sozinho no quarto. Era pouco iluminado. Talvez assim mais propício ao descanso. Precisava do descanso. Não do descanso físico mas do que lhe acalmasse a memória. Talvez afinal não fosse no coração que guardava a amargura, ou então talvez não o tivesse deixado todo na terra que era sua e trouxesse ainda consigo o suficiente para guardar aquele travo a fel. Talvez por essa razão a chave não aparecesse forçando-o a procurar o lugar de esperar. O lugar de esquecer, onde se esquece e se é esquecido. Mas isto é esta amargura a falar. Deveria tê-la deixado lá fora. Não prestara atenção e trouxera-a para dentro do lugar. Olhou as paredes brancas e fechou os olhos. Sentiu inteiro o coração a bater-lhe no peito. Mas como, se o deixara espalhado lá em baixo? Talvez porque o teu coração não cabe na tua terra. Era a voz espanhola que não era espanhola a falar-lhe. Talvez tivesse adormecido. Não dera conta da entrada da irmã que, sentada ao fundo da cama, lhe sorria. Está na hora de te pores de pé e vires conhecer o lugar. Devagar sentou-se e, também lentamente, começou a vestir-se. A irmã, sempre sorrindo e falando-lhe num português de sabor espanhol ajudava-o. Nunca ninguém o ajudara a vestir. Talvez no hospital. A irmã calçou-lhe os sapatos e atou os cordões. Ajudou-o a levantar-se e guiou-o pelo lugar. Muita gente, homens e mulheres esperavam. Alguns há muitos anos. Esperavam o quê? Esperavam apenas. Esperavam o mesmo que ele. Quando estivesse preparado, saberia, como todos saberão. Por isso davam aquele nome ao lugar.

A sala era grande e todos os que no lugar esperavam nela tinham o seu espaço. Sentados em redor da mesa almoçavam. Em silêncio uns, outros falando para ninguém, como a conversa das empregadas, frases repetidas, palavras de onde o sentido há muito se ausentara pela repetição, como os gestos iguais, distribuídos por todos e que pretendiam significar algum afecto, que pretendiam cuidar. O tempo, os dias a passar um sobre o outro, foram desvanecendo o sentido e o sentimento. Ficaram gestos quase mecânicos, gestos que os próprios pretendiam com significado. Gestos que faziam parte do seu quotidiano, gestos profissionais, gestos para empurrar a dor, para empurrar silêncios, para empurrar a solidão. Gestos que já não lhes pertenciam. Gestos que escondiam quem os fazia. Gestos para proteger um sorriso, um afecto que ia para além do gesto.
Os que esperavam comiam lentamente. Os que cuidavam, também, lentamente, moviam-se entre eles, limpando com um guardanapo o que não acertava com a boca, amparando a colher que ficava vazia antes de tocar os lábios, tocando o braço cansado que repousava sobre a mesa, talvez também esquecido da sua função. A espanhola que o não era espalhava sorrisos e afectos, talvez menos mecânicos que os outros. Não era empregada, mas uma das irmãs da ordem. Talvez porque a sua missão ou destino fosse esse, cuidar, distribuía sorrisos sempre diferentes. Sorrisos. Não parecia cansar-se. Essa fora a sua escolha. Diferentes as empregadas que não sabiam como proteger-se da dor e fugiam para trás do sorriso sempre igual, por vezes quase sofrido. Tanta espera, tanta partida. Aprenderam a guardar as lágrimas. A viver com o silêncio das vozes que falam apenas para si próprias, as vozes que conversam apenas consigo mesmas. Aprenderam a ouvir as vozes que só existem na memória de quem diz. Vozes a construir o próprio esquecimento.

A irmã apresentou-lhe o que comia ao seu lado. Era um dos companheiros de quarto. Surdomudo. Agora não se diz assim. Parece que é mal dizê-lo. Não sabia como se dizia agora nem isso lhe interessava. Surdo-mudo como toda a gente o conhecia. Nunca o vira, mas soube que era de uma das aldeias vizinhas. Cumprimentou-o com um aceno de cabeça a que o outro correspondeu. Entre ruídos e silêncios acabou a refeição. Uma refeição que outros fizeram para si, diferente das que costumava fazer no fogão da sua casa, quando não apenas um bocado de pão com algum conduto. Não por que não tivesse o que comer, mas apenas porque lhe não apetecia. Sentiu o cansaço. Era um cansaço da vida toda que ficara atrás, mas também um cansaço antecipado da espera que, sabia-o agora, iria ser longa. Sabia-o apenas, da mesma forma que soube quando devia procurar o seu lugar. Confundira apenas o destino mais imediato. Ouvira dizer que também os elefantes sabiam quando o seu lugar os esperava. Uma refeição com sobremesa. Um luxo. Quase se riu para si mesmo. A irmã apresentou-lhe os outros dois companheiros de quarto. Um era da sua família, parente não muito afastado, que nem sabia estar ali. O outro era de outra aldeia e várias vezes os seus caminhos se haviam cruzado. Chegaram até a partilhar o pó e a lama de uma das muitas estradas camarárias em que trabalhara quando mais novo.
O cansaço.
Só agora, que nada havia para fazer, sentia este cansaço, como se de repente a vida toda lhe tombasse sobre os ombros. Recostou-se na cadeira e olhou as árvores que se viam no pátio. Havia aqui uma tília, uma muito velha tília. Ao fim da tarde os pássaros vinham, numa gritaria ensurdecedora, adormecer nos seus ramos. A tília enlouqueceu de tanto grito e, fosse da loucura ou da velhice, um dia tombou. A madeira cortada alimentou a lareira por uma boa parte daquele inverno. Olhou o surdo-mudo que era quem lhe contava a história da velha árvore. Um chazinho? A empregada nova de sorriso simpático repetiu a pergunta. Olhou para ela, olhou para o surdo-mudo, mas não estava mais ninguém no corredor. Só ele e a empregada que teve de repetir novamente a pergunta. Sim, pode ser um chazinho. Adormecera e ficara a sonhar. Como poderia um surdo-mudo falar-lhe dos pássaros a enlouquecer uma tília? Além disso estava sozinho naquele corredor. Um surdo-mudo não fala. Foi um sonho. Onde teria ido buscar a ideia dos pássaros e da tília? Só podia ser de algum dos livros que o filho costumava ler. O chá estava bom, as bolachas nem por isso. Teria que se habituar. Nunca fora esquisito. Caminhou um bocado pelo corredor, percorreu os claustros, bebeu o silêncio, descansou num banco a olhar as flores. Gostava de ver as flores. Não as plantava, mas gostava de as ver, embora preferisse as que nasciam selvagens pelos campos. Seria agora difícil ver esses campos. Da janela, para lá do lugar via-se apenas uma parte da muralha que rodeava a vila. Teria que se alimentar das flores que viviam na sua memória. Esta passaria a ser o seu sustento. Na verdade, há muito já que era o seu sustento.
Há tanto tempo e só agora percebia. Ou talvez sempre tivesse percebido e só agora estivesse pronto para ver. A filha fora para a cidade onde moravam as esperanças, com o marido. O filho do meio não quis estudar mais e também para lá foi trabalhar. Com doze anos não podia ir sozinho. Tratou do que havia a tratar e também partiu com a mulher e o outro filho, o mais novo. Esperanças de uma vida melhor? Sacrifícios pelos filhos? Talvez que, muitos anos antes da queda, este tenha sido o primeiro momento em que sentiu e não quis sentir que a vida, uma parte dela, pelo menos, ficara para trás, com a sua horta, com as suas árvores.
Quis sempre que a nova vida fosse a melhor. Que fosse a melhor para os filhos. Mas a mata onde por vezes faziam um pic-nic aos domingos não tinha o cheiro dos pinhais da sua terra. O mar de tanta água não saciava a sede permanente da fonte ao fundo da rua da sua casa e a aspereza da areia da praia era um suplício quando comparada às arranhadelas das silvas que, incessantemente, cortava para manter cultivável a sua terra. O sangue das arranhadelas era a vida. A areia que a tudo se colava apenas algo desagradável que era preciso limpar. Na estação de serviço abastecia os carros com gasolina ou gasóleo, mudava óleos. Passava muita gente. Alguns diziam que eram importantes. Outros sorriam e diziam bom dia. Mas a gasolina não tinha o cheiro do alecrim, nem o gasóleo o das flores em redor do tanque e aquele chão de cimento era chão que não dava fruto. Abandonou a cidade das esperanças. Regressou à terra onde sempre vivera, com a mulher e o filho mais novo. Reencontrou nas suas árvores, na terra que as suas mãos tanta vez cavou, a vida que quase lhe escapara. As dores nas costas e o risco de lesão na coluna, apenas um inconveniente menor. Mas sempre os afectos desavindos. Sempre desavindos.
Chamavam para o jantar. Era cedo. Não estava habituado a jantar tão cedo. Mas teria que se habituar. Esta era agora a sua vida. O tempo para arranjar a terra, para semear alface ou couve, para o feijão ou a batata, o tempo da vindima, da azeitona e do fazer o azeite fora substituído pelo tempo do cafezinho, do almoço, do chazinho, do jantar, talvez da bolachinha antes do deitar. Começava a perceber os silêncios. A memória é um caminho que precisa do silêncio.  Jantar, um pequeno passeio pelos corredores, quarto, cama. Luzes apagadas e silêncios perturbados por um ocasional tossir ou um gemido fugidio. Foi assim o primeiro dos seus dias no lugar de esperar. Perdeu a conta aos que se seguiram. Quis perder essa conta. No escuro da noite sentia as empregadas espreitar. O silêncio dizia-lhes que estava tudo bem. As dores físicas que sentia não tinham outro remédio que os medicamentos que há já muitos anos tomava. As outras, a outra, não havia neste mundo nada que a aliviasse. As noites acordadas eram testemunha.
Os filhos estavam longe. Demasiado. Por vezes vinham visitá-lo. A filha que morava mais perto ia mais vezes. Todas as semanas. Por vezes mais que uma vez na semana. Raramente se juntavam todos. Ocasionalmente lá acontecia os filhos todos e os netos coincidirem. Eram momentos de felicidade e também de uma dor doce. Mas passavam e a doçura da dor também. Por vezes o surdo-mudo sentava-se ao fundo da cama e falava com ele. Essa dor que trouxeste contigo e deveria ter ficado lá fora passará. Aprenderás a construir a tua própria paz e então terás completado a tua espera. Aprenderás a construir uma memória para esconder a amargura. Gostava destas conversas. Estranhamente traziam-lhe alguma tranquilidade e adormecia. Durante o dia, às refeições, nunca o surdo-mudo se lhe dirigia. Raramente os seus olhares se cruzavam. Um dia o surdo-mudo foi. O seu lugar chamara-o. Sentiu tristeza pelas conversas acabadas. No mesmo dia alguém chegou e aconchegou-se nos cobertores do que partira. À noite, porém, como se tornara hábito, o surdo-mudo lá estava, sentado ao fundo da cama. Só mudei de lugar. Já não espero.
Nas noites que se seguiram não teve a companhia das conversas com o surdo-mudo. Um dia acordou sentindo-se mal. Já há algum tempo que o corpo se sentia mal. O médico nem sim nem não. Não eram as dores nas costas. Não era a dor. Eram outras dores no corpo. Não passaram. Mais medicamentos para as não sentir. Não conseguia dormir. Nunca mais conseguiria dormir. Durante a noite, sempre de olhos abertos, ouviu a voz da irmã espanhola. Não se dera conta da sua presença. Estava sentada ao fundo da cama como o surdo-mudo costumava fazer. É preciso que essa dor que traz dentro de si, vá. Para essa não há medicamentos. Momentaneamente o sorriso da irmã aliviou-lhe a dor. É preciso o perdão. Se esse não for possível, então o esquecimento. A memória é também um caminho de perdão e de esquecimento. Com o tempo tudo vai. Tudo se desvanece. Os ditos, os não ditos, os rancores, os afectos desavindos. A memória que permanece é a medida do nosso esquecimento e também a da nossa paz. A espera é o tempo para essa paz. Então, não haverá mais dor e as outras, as do corpo, estão apenas de passagem.
Adormeceu. Acordou descansado e todos os pesos que há muito carregava pareciam-lhe agora mais leves. Sabia que as conversas com o surdo-mudo eram apenas conversas consigo mesmo.
Eram uma forma de se encontrar. A conversa com a irmã era o sinal de que estava preparado.
Sentiu a leveza do dia e conseguiu levantar-se quase sem ajuda. Bebeu o café da manhã. Sentia-se pronto. A impaciência foi tomando conta de si ao longo do entardecer. O corpo fraco exigiu-lhe o descanso da cama. Descansou. Acordou no que lhe pareceu ser o meio da noite. O homem que encontrara há muito tempo, lá em baixo, à porta do lugar, estava agora sentado ao fundo da sua cama. Sorria. A chave apareceu. O seu lugar espera. Vem? Foi.

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