Queria conhecer outros mundos, mundos que sabia estarem para lá da pequena ponte que atravessava o ribeiro, depois daqueles muros. Mundos para onde se ia por aquelas veredas que depois seriam caminhos que depois seriam estradas. Mundos que vislumbrara um dia quando o pai a sentou à sua frente sobre o cavalo, numa viagem que durou até ao mercado da vila. Foi um dia inteiro de viagem e de sonho, que é outra forma de viajar. Não esqueceu mais o mundo de cores e vozes tão diferente daquele onde vivia, onde os mesmos trabalhos se repetiam, dia sobre dia, sem outros rostos que os dos irmãos, irmãs, pai, mãe.
As mós do moinho trabalhavam quase incessantemente. A horta que precisava de ser regada, a seara mondada, o almoço, o jantar, as camas, a casa. E o mundo, o outro mundo, sempre tão longe. As conversas tinham a dimensão fechada do seu cantinho. Falava com as árvores. As árvores sabiam de muita coisa. Não que as árvores se movessem do mesmo local de sempre, mas eram quase todas mais velhas e conversavam com os pássaros, com as abelhas, com o vento. Sabia das suas conversas. Ouvia-as sempre a sussurrar.
O vento era sábio. Percorria vezes sem conta todas as direcções do mundo e dele dava notícias às árvores. O vento gostava da conversa com as árvores. Às vezes riam-se muito e as gargalhadas do vento quase pareciam o uivo que os lobos faziam à distância. Os ramos das árvores baloiçavam e espantavam-se com tanto que havia para além. O vento trazia para aquele cantinho o mundo inteiro que havia lá fora, lá longe. Queria entender melhor o que as folhas sussurravam. Subiu à árvore mais alta e ficou a baloiçar como quem dança com os ramos.
Encontrou-a a irmã mais nova. Esta sabia que não mais ouviria a sua favorita contar-lhe as histórias de outros mundos, mundos que não conhecia mas inventava. Aprendera a abrir o peito e a nele guardar essas histórias. Abriu mais o peito e nele escondeu a irmã e as histórias todas que ela sabia. No seu peito começou a habitar o que tinha e o que nunca teria. Aí foi crescendo o seu Sonho, um sonho que tinha o tamanho do mundo, um sonho maior que o seu passo sempre peado.
No mundo do seu sonho não era mais a que recebia ordens de todos e que a todos tinha de obedecer. O pai, a mãe, o irmão mais velho, a irmã mais velha, todos excepto o mais novo, quase criança. E ainda a casa, a horta, o moinho, lavar a roupa, passar a roupa, lavar a louça. Dia após dia, sempre iguais os gestos, os passos, as conversas. Sempre o mesmo mundo parado. Só nos sulcos que marcavam os rostos o tempo se movia.
O vento trazia notícias que as árvores guardavam, as árvores suas confidentes, suas amigas. Por vezes também o ribeiro trazia novas. Mas era curto o seu curso e o que tinha para contar era do tamanho das suas vistas, só um pouco para lá das veredas, um pouco para lá da aldeia.
Foi talvez o ribeiro que o trouxe. Era magro, muito magro, parecia até pendurado na roupa que o vestia. Vinha buscá-la para casar. O irmão mais velho já saíra de casa e tinha o seu próprio moinho. A irmã mais velha casara com um polícia e fora viver para a cidade mais próxima. Uma cidade pequena, pouco maior que a vila, mas sempre era uma cidade. Um a um, todos foram abandonando a casa. Ficou ela e o irmão mais novo. Havia menos gente a mandar e mais trabalho, agora que eram só os dois e o pai e a mãe. O homem magro pareceu-lhe a entrada para o sonho. Pareceu-lhe.
Foi breve a ilusão. Casaram e continuou à entrada do sonho. Foram viver para a aldeia próxima. Os pais do homem tinham um moinho e uma horta. Trabalho. Muito trabalho. O homem também tinha um sonho: Uma casa e uma terra sua, só sua. Cada tostão era guardado para cumprir esse sonho. Era agora um chefe de família. Os filhos haveriam de vir e queria para todos eles uma casa.
O sonho da mulher não era o mesmo. Não que não quisesse uma casa. Uma terra. Talvez dispensasse a terra. Mas continuavam as ordens. Do homem, dos sogros, que era sua a casa. Nasceu a filha mais velha. Trabalho acrescido.
Iniciou-se o longo rol de ausências. Primeiro o sogro. Depois a sogra. Doença longa, muito longa. A vila lá no alto, bem alto, construída sobre o rochedo. À entrada, quase colado à muralha exterior, o lugar de esperar. Esperou tempos sem fim, tempos contados passo a passo, calçada acima, calçada abaixo. Trouxas de roupa lavada para cima, trouxas de roupa suja, roupa de velho, roupa de doente, para baixo. Roupas que lavava na levada do moinho. Mudaram de casa. Ainda não a sua. Continuava calçada acima, calçada abaixo. Até que mais uma ausência se veio aconchegar no seu peito. Os pés descansaram da calçada. Só os pés. Os que do mundo dos outros se partiam permaneciam no seu peito. Eram ausências a povoar o seu mundo. Longe do sonho no mundo dos outros, vivia o sonho no mundo dentro do seu peito. Os anos moviam-se parados e só no tamanho da filha via o tempo a andar. Veio outra filha e a mais velha deixou a escola para ajudar nos cuidados à mais pequena, nos trabalhos da casa, nos trabalhos no campo. Veio depois um filho. Outra casa, ainda não a sua. A filha mais nova que adoece. Quatro anitos. A dor maior, maior que todas as dores juntas. A filha perdeu-se para o mundo dos outros. Talvez também aí se tenha começado a perder para esse mundo. Encheu-se o seu peito com essa ausência maior. Uma ausência que extravasava nas águas que lhe percorriam o rosto e que nunca, nunca pela vida toda deixaram de o percorrer, mesmo que os olhos permanecessem secos.
Finalmente a sua casa. Uma casa com um chão de sobrado. Uma casa com electricidade. Uma casa. Queria agora encher com coisas bonitas a sua casa. Coisas bonitas que custavam dinheiro. Queria não sentir tanta ausência. Não sentir a ausência da filha. Mas todos os seus gestos, todas as suas vozes, todo o seu corpo, por dentro e por fora diziam sempre a mesma dor. Devagar, muito devagar, procurou nas pequenas coisas que serviam para enfeitar a casa, no cuidar do filho, no trabalho do campo, um esquecimento que não veio. Que nunca veio. A filha mais velha haveria de aprender costura e teria outro destino que não o de ficar parada na espera. E já estava crescida. Com treze anos já se é grande. Com treze anos não se é grande.
Ao lado da casa nova havia um terreno que fora oferecido ao marido e ao padrinho do filho. Decidiram construir uma casa nova para cada um. A sua teria dois andares. Seria mais compatível com os seus sonhos. Ficou pronta quando o filho mais novo nasceu. Tinha de novo três filhos. Mas o seu peito continuava cheio da ausência da que não estava. As mãos distribuíam afagos pelos que estavam à sua volta. E talvez que esses afagos diminuíssem a dor maior e a tornassem mais suportável, mais esquecida.
A casa nova ficou pronta e mudaram-se, ainda o filho mais novo nem gatinhava. Arrendaram a casa que deixaram. Era pouca a renda mas sempre ajudava às despesas do dia-a-dia.
Quando tudo parecia equilibrar-se, chegaram mais ausências. Primeiro foi o pai. Depois a mãe e o seu peito que já não comportava mais dores encheu-se e quase sufocou o coração. Não queria deixar ninguém partir e tanta ausência começou a escapar-se pelos sonhos, a transformar-se dentro da memória. Continuou a guardar todos no seu peito e muitas vezes se recolhia com eles. Por vezes segurava nas mãos uma bíblia que fora da mãe. Abria-a e parecia ler. Nunca aprendeu as letras nem como se juntavam para falar nos livros. Mas gostava de ler aquele livro. Talvez um contacto mais físico com a mãe que guardava no peito.
A filha estava crescida. Começou a falar-se de namoro, de casamento. E a guerra? A guerra dos outros, para onde os homens jovens partiam todos. Era melhor esperar pelo regresso. E se por lá fica? A filha não esperou. Casaram e o marido foi para a guerra. Por lá ficou o filho mais novo do seu irmão. Pensava já não haver no seu peito espaço para mais dores. Mas também ele foi acomodado junto das outras ausências povoavam o seu peito.
O marido da filha voltou, são e salvo. Pelo menos salvo. Durante muito tempo, anos, viam-no a olhar nervosamente para um lado e outro. Olhar para trás, como quem espera uma bala que joga às escondidas. Quis mudar-se para a grande cidade que vira à partida para a guerra e que no regresso lhe disse que já não haveria mais guerra para si. Um trabalho para ganhar dinheiro e construir uma família. Para lá foram filha e marido. Ficaram os dois filhos. Um pequeno de mais. O outro, na cidade próxima a estudar no liceu. Durante a semana ficava em casa da sua irmã mais velha, a que casara com o polícia que já era subchefe. Ao fim de semana ia a casa. Muita despesa, muito sacrifício. Calado como o pai. Disse que não queria estudar mais e quis partir para a cidade maior, para junto da irmã. Até já tinha um trabalho. E para lá seguiu também. Não ficava bem deixar um filho tão novo numa cidade tão grande, ao deus dará. Seguiram todos. Deixaram a casa, a horta e foram viver para um quarto alugado. Sacrifícios que se fazem pelos filhos para depois apenas se receberem pontapés. E todos os dias e às horas todas, as mesmas palavras se repetiam. Foram assim os anos que se seguiram. A procura de uma casa melhor para todos habitarem, uma morada à medida dos seus ordenados, foi durante aqueles anos uma constante. Um ano depois de chegarem, conseguiram, finalmente, em conjunto com uns primos, alugar uma casa de quatro assoalhadas que dividiram a meias. Havia agora um quarto para os dois filhos e outro para o casal. Mas a paz nunca se viu. Os sonhos divergiam. O homem queria talvez o regresso para junto das suas árvores, para a terra que era sua e que dele fazia parte como ele àquela terra pertencia. À mulher parecia-lhe um retrocesso sem sentido, logo agora que entrara no mundo que era o do seu sonho. O mundo das senhoras de bem, dos vestidos da moda, das saias bonitas, das blusas de seda. E do chá e dos croissant e dos jesuítas e das bolachinhas e do dedo mindinho esticado enquanto bebericavam o chá. Um mundo que queria seu e foi descobrindo que era apenas um sonho, quando era a que servia o chá e não a que o bebia, ou quando lhe deixavam uma nota escrita com instruções que não sabia o que diziam porque nunca houvera letras para aprender. Fazia bem o seu trabalho. Sempre o fizera. Desse trabalho retirou o respeito que de outra forma nunca as “senhoras” para quem trabalhava lhe teriam. Talvez nunca tenha percebido que esse respeito não se devia à sua pessoa, mas ao trabalho bem feito. Ou talvez inconscientemente o soubesse e daí uma certa subserviência onde, por vezes, assomava algum desprezo por quem a tratava com a sobranceria de patroa. No seu peito guardava os momentos bons e assim ia compondo o seu sonho. O seu mundo de sonho. Os outros momentos, os que não interessavam, ficavam no mundo dos outros, esse mundo que, sabia-o, nunca seria o seu. Não queria voltar para aldeia. Voltar era como dizer que falhara. Insistiu para que ficassem. Todos os argumentos eram bons. Os filhos, os empregos, os trabalhos menos pesados, as costas do homem. E os filhos, os filhos, o que não se faz pelos filhos. O mais velho mudara de emprego e ganhava agora o dobro. Recomeçara a estudar num externato com horário nocturno. Saía de casa às sete e meia da manhã e regressava depois da meia-noite. Mal o via durante a semana. O mais novo acabara a primária e iniciara os estudos na secundária próxima de casa. Mais despesas com livros, com propinas. E sempre as desavenças em casa. Por um motivo ou por outro. Sem motivo. Sempre as desavenças. O mal-estar estendeu-se a toda a casa. Procuraram outra. O filho mais velho começou a ganhar melhor ordenado. Tudo junto já dava para arrendar uma casa sem necessidade de dividir a renda. Não pararam as desavenças. O regresso, o não regresso, os sacrifícios pelos filhos, o dinheiro mal gasto. Tudo era uma razão sem razão. E as blusas tão bonitas e os vestidos tão bonitos e as casas tão bonitas. Mas as oliveiras que precisavam de ser podadas e a perderem-se e as macieiras e as laranjeiras e os pessegueiros e onde cultivar as batatas e o feijão e as couves e as alfaces? E os filhos. Os sacrifícios pelos filhos. Os filhos de quem um dia só iriam receber pontapés. O filho mais velho que agora ganhava mais que o pai e mãe juntos. Que entregava o ordenado inteiro em casa. Um dia, ao jantar, levantou-se da mesa e sem uma palavra saiu daquela casa. Nunca mais lá voltou.
Alguns meses depois voltaram para a aldeia. Foi um retrocesso. Refugiou-se no mundo que existia dentro do seu peito e escondeu-se. Durante muito tempo aí permaneceu. Não queria trabalhar a terra. Mas era demasiado trabalho só para o homem. Tinha que ajudar. Contrariada. As desavenças que não paravam. Havia na aldeia uma espécie de matadouro onde todas as semanas se matavam alguns porcos. Quase todo o trabalho de migar a carne e fazer os enchidos era manual. Era um trabalho que toda a vida fizera. No seu regresso à aldeia era o que mais se assemelhava ao mundo que queria para si. E sempre recebia dinheiro vivo, que da terra não via nenhum. Era também uma forma de se afastar dos trabalhos do campo, de conseguir um tempo sem desavenças e onde as conversas dançavam de uma boca para outra. Gostava de contar histórias às mulheres que trabalhavam consigo no arranjo das carnes, no fazer do fumeiro. As outras mulheres também contavam histórias. Quase não as ouvia. As suas histórias do mundo da cidade grande, das senhoras bem vestidas eram mais interessantes. E falava, contava histórias do que vira, do que vivera, do que não vira, do que não vivera. Falar torna aquilo de que se fala mais distante embora lhe dê a aparência de proximidade. Transforma o falado em objecto, algo que já não somos nós e do qual nos podemos distanciar. Falar é colocar distância entre nós e a dor que nos habita. Falar para não ouvir. Falar sempre. Falar. Falar é também uma forma de sustentar em palavras o mundo que queremos. Um mundo só de palavras.
Aos poucos foram deixando de a ouvir. Falava já só consigo mesma. Talvez já nem se ouvisse. Talvez fosse apenas como um vício, uma necessidade de esquecer. E aos dias que iam passando se juntaram as semanas e os meses e os anos. O mundo que quisera, cada vez mais longe. Só no seu peito, guardado longe dos outros, existia. Também só aí a sua vida existia. Os anos foram-lhe trazendo mais ausências e à medida que estas se foram acumulando, uma tristeza, assim como uma dor que vai crescendo, começou a tomar conta do mundo que a habitava. Quis guardar todos os que se foram ausentando. Um cunhado, o irmão mais velho, outro cunhado, a cunhada, a irmã mais velha, outra irmã, o irmão mais novo, a vizinha com quem construía as tardes do dia. De súbito, deu-se conta que era a mais velha na sua rua, talvez a mais velha na aldeia. A filha visitava-a todos os dias ou quase. Apesar de morarem perto, custava-lhe subir a ladeira até à casa onde vivia. Por vezes o genro ia buscá-la no carro para almoçar ou jantar com eles. Sabia que se preocupavam consigo, mas não precisava que andassem sempre a espreitar se estava bem. Sabia tomar conta de si. Qualquer pessoa se esquece às vezes do fogão aceso. E para não se esquecer até começou a cozinhar menos. A filha preocupada porque não se alimentava, porque só comia bolachas. Não era verdade. Não se lembrava bem do que tinha comido. Mas não eram só bolachas. E os medicamentos? Ora, os medicamentos estão para aí. E tanto medicamento para quê? O que é que os médicos sabem? Esses não que já tomei muitos e não fazem nada. A filha arranjara-lhe uma caixa com compartimentos para os dias da semana e ainda para as refeições. Por vezes ficavam dias inteiros cheios. Não preciso de nada. E quando precisar vou lá para cima para o lugar de esperar. O teu pai já lá está.
Sim. Já para lá fora há algum tempo. Já há uns anos que tinham dividido a casa para não se encontrarem sequer. A parte de baixo para ela, o andar de cima para ele. Por vezes os vizinhos ainda ouviam as discussões, as palavras lançadas de um andar para o outro. Os anos e as doenças tornaram o homem ainda mais magro do que era quando apareceu a pedi-la em casamento. Uma noite, um pouco antes da madrugada, ouviu-o abrir a porta, fechá-la e seguir rua abaixo. Espreitou-o à socapa. Não parou sequer para beber na fonte, como era seu hábito. Virou à esquerda, como se seguisse o caminho da horta que já há muito não era sua. Foi para o lugar de esperar, disse-lhe a filha no dia seguinte. Não quis incomodar ninguém.
Os olhos que deixaram de ver. Talvez não quisessem ver. O médico operou ambos. Um recusou-se a ver, para sempre. Talvez uma impressão estranha, uma dor que precisava de ser aliviada, uma comichão irritante. Um dedo a passar por baixo do penso, a massajar a dor. O médico que já não poderia fazer nada. Tinha uma infecção e daquele olho não voltaria a ver. Mas do outro via bem. A culpa era certamente do médico. Só poderia ser. O não ver nada do que via, passou a ser o tema das suas falas. Com as ausências que se iam acumulando, o mundo dos outros foi ficando vazio de quem a ouvia. Passou a recolher-se, dias inteiros, dentro de casa, na companhia de um rádio e de uma televisão. Os olhos que não viam contavam à filha como era bonito ou feio o que vira na televisão. Como gostava dos vestidos elegantes de alguma apresentadora. Contava-lhe que tinha visto passar ao fundo da rua alguém que pensava já por cá não andar.
Fechada em casa, não falava com ninguém e esse não falar foi trazendo o seu mundo interior para a superfície, até ele se apossar de si, da sua casa a querer estender-se aos que ainda a rodeavam. Na casa guardava a tristeza em pequenas caixinhas ou embrulhos, arrumados como as blusas, as saias, os casacos e tanta outra roupa que já não usava, que nunca usou, que nunca voltaria a usar. Trapos. Farrapos de uma memória que persistia em construir. Uma memória cada vez mais longe do mundo dos outros, do mundo. Uma memória vazia do que ficava para lá da porta, cheia do mundo que guardava no peito. Um mundo insuportavelmente carregado das ausências que os anos foram enchendo. Um mundo que começara com a irmã que subira a uma árvore e lá ficara a imitar o balouçar dos ramos ao ritmo do vento. Um mundo que guardava a dor maior da filha de quatro anitos. A dor maior. A dor permanente mesmo quando nela não pensava. Mesmo quando julgava não a sentir. A dor que era todas as dores. A Dor. Um mundo que no seu peito foi crescendo com os pais, os sogros, os irmãos. Talvez dores menores, dores que serviam para distrair da dor maior. Por vezes, quando o seu peito parecia encher até quase explodir, abria uma das suas caixinhas e ficava a alimentar-se dessa tristeza ali guardada e a tristeza subia-lhe até aos olhos e lavava-lhe o rosto como lhe lavava o coração. Ficava mais calma, quase feliz. Tinha tanta companhia. Mas era uma companhia triste. Uma companhia solitária. Uma solidão que não escolhera, que não quisera que fosse assim. O mundo que queria recusou-a. Talvez por querer sempre um mundo maior que o seu passo. Talvez porque o mundo não seja o Mundo, mas o que cada um de nós constrói dizendo que é o mundo. Talvez o mundo de cada um de nós se vá ajustando ao Mundo e nem sequer notemos as diferenças. Mas o seu mundo chocava quase sempre com o Mundo. Com aquele que era o mundo dos outros. Esse mundo que a foi empurrando para dentro da sua casa, para dentro de si mesma, que a submergiu no que guardava dentro de si.
Às vezes os filhos reuniam-se. Vinham de longe e era raro os netos e filhos coincidirem todos. Almoçava e jantava com eles. E falava, falava, como se quisesse afastar-se do seu mundo que a puxava para si, como se quisesse colocar distâncias para as ausências. Os filhos ouviam sem ouvir. Ela ouvia os filhos sem os ouvir, ouvia-se a si sem se ouvir. Queria fugir do seu mundo, mas só nele se ouvia e só os que habitavam no seu peito a escutavam. Queria a sua casa. Queria as suas caixinhas para abrir a tristeza e libertar-se um pouco com as lágrimas que lhe refrescavam a cara nas tardes abafadas do verão.
Os joelhos e as pernas cada vez mais fracos não lhe permitiam caminhar. Deslocar-se por dentro de casa era já um esforço. Deixou de sair à rua. O mundo dos outros resumia-se à filha que diariamente a visitava e preocupada não a queria sozinha em casa. Convenceuse ou quis ser convencida e foi para casa da filha. Foi talvez uma condescendência para esta pensar que ajudava. Não precisava de nada. Seriam só uns dias. Depois voltaria para a sua casa. De noite, quis levantar-se da cama. Caiu. Uma anca fracturada. Semanas no hospital. Em casa da filha não havia condições para lhe prestar os cuidados necessários para o seu tratamento. Eram cuidados especializados. O lugar de esperar acolheu-a. De lá não voltou. Essa nova situação renovou-lhe o contacto com o mundo dos outros. Foi breve. Falava-lhes do seu mundo. Os outros, do mundo deles. Cada um no seu próprio mundo. Cada um a construir o seu próprio esquecimento, a construir desconstruir o seu próprio mundo. Cada um parado na espera. Cada um a falar com as suas próprias ausências. Uma comunicação aparente que se foi tornando uma irritação para todos.
No lugar de esperar, o homem ainda cumpria a sua espera. Não se falavam. Na mesa comum ficavam longe como se não existissem. Ainda muitos meses se somaram até ao dia em que o homem não apareceu para o pequeno-almoço. Nada perguntou. Veio a filha e disse-lhe: Foi.
Não sabia que fazer. Às escondidas chegaram umas lágrimas. O lencinho que sempre trazia na manga secou-as. Talvez que secretamente tivesse guardado mais uma ausência no seu peito. Só ela não teria quem a guardasse. Sabia que não seria assim. Mas fazia parte do seu lamento antigo. Um lamento que quase nascera consigo. O tempo continuou a passar parado. Por vezes a sua voz ouvia-se falar, mas era consigo mesmo que falava. Era com os habitantes do seu mundo, com aqueles que gostava e mesmo alguns de quem não gostava mas que, nem ela sabia o por quê, guardara sempre dentro do peito.
A voz começou a acompanhar o ritmo parado do tempo. Tornou-se mais lenta, como os gestos, como os olhos que se fechavam, como a atenção que se esquecia. Comeu mal. Sentia-se estranha. No hospital que era um AVC. Com a idade pouco havia a fazer. Na cama, semi-imobilizada tinha dores. Daquelas dores que os medicamentos não resolvem porque há dores que os medicamentos não podem resolver. Tanto sofrimento, queixavase. Queria fugir daquele sofrimento que era do mundo dos outros. Tanta vida com aquela companhia. Queria ir embora, abraçar as caixinhas onde guardava a tristeza e abrir um último sorriso.
Refugiou-se no sonho. Aconchegou-se no seu fundo mais fundo, fechou o peito e deixou o mundo. O mundo dos outros. Para sempre.
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